Como a religião afeta o sexo e a política no Brasil

Texto, foto e áudios: Guilherme Bernardi

 

As eleições para prefeito de São Paulo em 1985 foram decididas por uma pergunta que, teoricamente, não deveria influenciar a política. O jornalista Boris Casoy, na abertura do último bloco do debate entre os candidatos na televisão, perguntou a Fernando Henrique Cardoso, então senador pelo MDB, se ele acreditava em Deus. Ele tentou desviar, disse que o povo era religioso, que respeitava as religiões e, logo, estava “abrindo uma chance para a crença em Deus”. Não colou. O ex-presidente Jânio Quadros, então no PTB, foi o vencedor daquele pleito.

A fala de FHC vai exatamente ao encontro do que o Estado é ou deveria ser: laico. Laico significa que ele respeita todas as crenças e não mistura Estado e Igreja – o que não significa ser ateu. Desde então é incomum que alguém declaradamente incrédulo se candidate no país. O próprio FHC, na eleição presidencial de 1994, fazia questão de chamar a imprensa sempre que ia comungar. A situação não mudou desde então. Nas eleições de 2016, segundo reportagem da BBC, apenas um, entre os mais de 480 mil candidatos a vereador, se declarou ateu. Edmar Luz (PPS-SP) não foi eleito. Já em pesquisas de 2018, divulgadas pela Folha de S.Paulo, 98% das pessoas dizem crer “na ideia do Criador” e, em outra, 79% dizem ser importante que o “candidato acredite em Deus”.

 

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A Bíblia tem papel mais importante do que a Constituição para muitas pessoas

 

O Brasil é um país com 87% de cristãos, segundo o censo de 2010, e prefere um candidato crente. Esses dois pontos não seriam problema se não afetassem questões afins às duas áreas, mas que, em um Estado laico, deveriam ficar restritas à política, como aborto, união homoafetiva e educação sexual. Outro grande problema, segundo Jonathan Menezes, professor de teologia na FTSA (Faculdade Teológica Sul Americana) e doutorando em história pela Unesp (Universidade Estadual Paulista), é que as interpretações atribuídas à Bíblia são, em sua maioria, uma forma historicamente construída de abordar os temas e não, necessariamente, a única leitura possível do livro sagrado.

Menezes manteve um blog – Escrever é Transgredir – por quase dez anos (a última postagem é de abril de 2017), no qual abordou algumas dessas questões e contestou outras verdades “absolutas”. Em um post chamado “Carta a um jovem casal sexualmente ativo”, ele diz que: “Ignora-se, como lembra Robinson Cavalcanti, que ‘a Bíblia não é uma enciclopédia de prescrições para cada detalhe da vida do homem’. O que ela nos oferece, em muitos casos, como o do sexo pré-matrimonial, por exemplo, ou são orientações para casos muito específicos e histórica e culturalmente situados ou princípios relacionais mais gerais fundamentados no amor a Deus, à própria vida e ao próximo”. “É possível encontrar base bíblica para o que se quiser; nos resta saber se a Bíblia está afirmando de fato o que nós dizemos que ela está afirmando”, completa o professor. Ronaldo Gaspar, professor do departamento de ciências sociais da UEL (Universidade Estadual de Londrina), explica que isso é por causa do texto bíblico ser fundamentalmente interpretativo; dessa forma, as igrejas podem isolar trechos ou os interpretar conforme suas necessidades ou conveniências.

Religiosidade e religião

Religião e Igreja são, quase sempre, usados como sinônimos. Menezes diz que não há muita distinção entre os termos, mas que é possível diferenciar “religiosidade” e “religião”. O primeiro, segundo ele, diz mais sobre o âmbito privado e individual; já o segundo significa algo que está ligado a uma instituição e, por isso, tem valores e orientações gerais.

A atual visão que a Igreja tem com relação ao corpo e, consequentemente, à sexualidade vem desde Santo Agostinho (354-430). “Santo Agostinho recebeu muita influência da filosofia grega, especialmente de Platão. Então, a visão teológica do cristianismo, da fé de Deus e do ser humano, que ele constrói é dualista. Há uma concepção dualista do ser humano em Platão, que, de algum modo, se repete em Agostinho. Nesta visão, há divisão entre a alma e o corpo, na qual a primeira é muito mais valorizada, elevada, do que o segundo”, explica o professor.

 

 

Entretanto, esse dualismo não está presente na Bíblia. Segundo Menezes, se pensarmos no princípio da criação, em Gênesis, “Deus nos fez do barro e nós somos corpo; não há essa divisão entre corpo, alma e espírito. Nós somos ser humano e somos uma coisa só”. Ele ainda completa que, no Antigo e Novo Testamentos, o corpo é muito importante e isso pode ser exemplificado com Jesus tendo deixado a Igreja como “seu corpo; e a Eucaristia e a ceia lembram isso”.

Considerando essa importância dada ao corpo nas escrituras, a sexualidade, de acordo com o professor, tem uma abordagem muito natural – não sendo “demonizada ou moralizada” – e é tratada como uma “benção divina”. “Agora, como tudo na vida, ela [a sexualidade] pode ser usada de uma forma maléfica ou benéfica. Por conta da concepção cristã (histórica e não bíblica) de sexualidade é que ela se tornou o centro do que se considera um pecado”, explica o professor. Segundo ele, é possível perceber que os sexuais são muito mais valorizados do que os demais pecados. Portanto, há muito dessa moralidade que não tem fundamentação bíblica de fato, mas foi construída historicamente.

Cultura, religião e sexualidade

“A religião está intimamente ligada à cultura. O modo como a Bíblia foi lida através dos séculos tem tudo a ver com o contexto cultural”, explica o professor. Para ele, apropriações culturais das escrituras são fruto da própria leitura histórica feita delas. “É por isso que muitas vezes há uma confusão entre os absolutos culturais e o que na religião são os absolutos das escrituras; e é preciso fazer essa distinção.”

Questionado sobre a importância da religião no Brasil, o professor não titubeia e diz que “ela é grande”. Desde o Iluminismo – período que corresponde ao século 18 e ao questionamento de crença e superstição como formas de autoridade e legitimidade na Idade Média -, há uma valorização da razão em detrimento da religião e um processo de secularização (separação do Estado e da Igreja) da sociedade, ocorrido de forma mais tardia em países como o nosso. Apesar disso tudo, a “religião ainda tem um papel fundamental na sociedade”.

No país, é o cristianismo que dita as regras. Em vez da Igreja instruir as pessoas, ela “parte de um pressuposto de que, devido à moral religiosa, as pessoas não vão fazer sexo fora dos padrões estabelecidos pela Igreja”, comenta o teólogo. Ele diz ainda que trabalhou em uma instituição religiosa com jovens em situação de risco e nela muitas meninas já haviam engravidado, tido filhos ou sofrido abortos e tinham vergonha dessas questões. “Algumas delas tinham vergonha, por exemplo, de ir a um posto de saúde ou outro lugar que tivesse uma camisinha. Então, elas faziam sexo totalmente desprotegidas e tinham vários problemas sociais ligados a isso.” Menezes defende que a Igreja tenha um papel importante nessas questões.

O teólogo tentou, inclusive, mudar isso. Uma vez levou uma mulher para falar sobre ISTs (Infecções Sexualmente Transmissíveis) nessa instituição na qual era professor. Ela levou uma caixa de camisinhas, mas foi impedida de distribuí-las naquele lugar. “É um discurso oficial que mantém essas aparências a respeito dos grandes temas como sexo pré-marital, homossexualidade, divórcio e aborto” e esse discurso é conservador, segundo o professor.

Menezes diz que essa visão e abordagem são direitos da Igreja, enquanto “exercício de sua fé pública”, e que ela está fazendo a defesa de seus valores, mas há uma questão “da própria dignidade, dos direitos das pessoas, que ela também deveria, dentro de sua própria esfera, tentar influenciar de um modo mais consciente, sem hipocrisia”. Isso faz com que discussões de âmbito privado, como masturbação, até as públicas, como aborto, sejam tratadas ou influenciadas por esse discurso moralista da religião.

Essa visão influenciou, por exemplo, a discussão sobre o aborto – tema que deveria ser tratado enquanto questão de saúde pública. A eleição presidencial de 2010 teve troca de acusações entre os candidatos com relação a ele. José Serra (PSDB) disse ser contra o aborto por “valores cristãos” – apesar de sua mulher, segundo ex-alunas dela, ter admitido já ter feito um. Dilma Rousseff (PT), vencedora daquele pleito, chegou a assinar e a enviar uma carta a líderes religiosos se posicionando abertamente contra o aborto. Durante seus anos como presidente (2011-2016), nenhuma legislação com relação ao tema foi apresentada, apesar de ter recebido cobranças sobre o tema, principalmente por ser a primeira mulher presidente da história do país.

Religião e conservadorismo

A tradição iluminista e as bases filosóficas da esquerda, surgidas na Revolução Francesa, fazem com que esse campo político dificilmente se alinhe à religião. De qualquer forma, Gaspar diz que, em alguns momentos, os dois lados se unem em questões “táticas”, como a luta pela redemocratização no Brasil durante a ditadura militar.

 

 

“Tratar de religião e política é sempre algo controverso”, comenta Gaspar. O professor de ciências sociais explica que isso é porque há muitas interpretações e essa relação não é linear – em alguns momentos elas se unem para algumas lutas, mas o papel da religião é “predominantemente conservador”. O cristianismo, por exemplo, surge como um movimento religioso de contestação a algumas formas do poder estabelecido, mas não a uma ordem social fundada na escravidão. Na Reforma Protestante também houve um questionamento da autoridade católica da época, assim como parte das lutas sociais contra a ditadura militar brasileira que contaram com apoio de tendências da Igreja Católica de caráter democrático-popular, como as fundadas na Teologia da Libertação. Entretanto, essas tendências e alianças nunca foram de caráter revolucionário e de contestação da estrutura social.

No Brasil dos anos 1960 e 1970, os movimentos sociais, principalmente os estudantis, questionaram as formas de organização da vida e o país viu a defesa de novas formas de organização familiar, orientação sexual mais livre e uma afirmação da mulher advinda de movimentos feministas da época. Nos últimos 15 anos, entretanto, o que está acontecendo no país é uma participação mais organizada de grupos religiosos – a atual “bancada da Bíblia” do Congresso, por exemplo -, principalmente os ligados às igrejas neopentecostais, que reforçam as formas que naquela época foram questionadas. Segundo Gaspar, para essa contestação dos novos valores defendidos naquelas duas décadas, eles interpretam trechos do livro sagrado de forma a combater ideias que eles consideram sendo de “esquerda”.

Muitas vezes esses temas não são de esquerda, mas de caráter “puro e simplesmente liberal”. “A questão fundamental para eles é que o liberalismo e a esquerda, de um modo geral, procuram romper ou, de algum modo, afirmar um direito individual que se contrasta com certas formas de viver, que, tidas como tradicionais, são assentadas em uma espécie de naturalidade da espécie humana.” Dessa forma, baseada no discurso da tradição e na justificativa de que o tempo provou a necessidade de instituições seculares, como a própria Igreja, e das formas de viver e se organizar que conhecemos e, por isso, as temos como naturais, a religião segue atuando como uma das pedras angulares da atual sociedade.

 

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