UEL: Exatas têm evasão de 46% e alunos relatam dificuldades

Texto, foto, áudio, vídeo e infográfico: Isabela Torezan

 

As ciências exatas carregam uma fama antiga: área de gênios, do raciocínio matemático complexo, carreira para poucos corajosos. Observamos isso já nos anos do ensino fundamental, quando é incomum o aluno ou aluna que demonstra interesse pela matemática e não teme a disciplina como um bicho de sete cabeças.

O senso comum diz que é preciso coragem para escolher fazer um curso como física ou matemática, o que mostra que a ideia de que essa é uma área muito exigente chega à graduação. Dificilmente alguém pensa em um desses cursos como sendo fáceis de fazer e concluir, e isso é percebido quando analisamos dados de evasão de uma universidade. A porcentagem de alunos que efetivamente concluíram um curso diz muito sobre como eles lidam com uma dificuldade que é percebida até mesmo sem dados científicos.

Na UEL (Universidade Estadual de Londrina), o CCE (Centro de Ciências Exatas) tem uma média de evasão de 46,44%, analisados os anos de 2003 a 2013. Ou seja, quase metade dos ingressantes nos cursos de ciências da computação, física, geografia, matemática e química não se forma porque desiste do curso. Para comparação, a média de evasão estudantil da UEL toda, nos mesmos anos, é de 26,11%. O gráfico a seguir mostra a porcentagem de evasão em todos os cursos do CCE, no período de 2003 a 2013. Os dados foram conseguidos com a Proplan (Pró-Reitoria de Planejamento) da universidade.

 

GRÁFICO

 

A evasão caracteriza qualquer caso de desistência do aluno em cursar uma determinada graduação, e as porcentagens, por mais chocantes que sejam, não permitem identificar os motivos pelos quais a permanência nesses cursos é tão baixa, principalmente se comparada ao restante da universidade. Leonardo Feitosa Gomes, de 21 anos, hoje cursa letras espanhol e teve como primeira opção na UEL o curso de física licenciatura. Ele fez física durante um ano e meio, antes de desistir no segundo ano e se decidir pela mudança até de centro de estudos.

“Desisti no segundo ano porque no primeiro ano já comecei a ter dificuldades com [a matéria de] cálculo e já estava bem descontente. No meu segundo ano a gente pegou um professor que não ouvia os alunos, não respeitava ninguém. Ele passava a matéria de uma forma que ninguém entendia.” Para Gomes, a combinação de matérias que exigem muito do aluno e professores pouco dispostos a ajudar e a se solidarizar com as dificuldades é o que torna os cursos de exatas da UEL difíceis de serem concluídos. Ele compara o ambiente do CCE com seu atual centro, o CLCH (Centro de Letras e Ciências Humanas): “Aqui os professores são bem mais receptivos, são bem mais ouvintes. A gente cria uma relação de amizade com o professor que no ponto de vista de física não existe. Nunca criei uma amizade com nenhum professor em física, é sempre aquela relação professor doutor, você sente um abismo de diferença, eles querem se impor para você”.

Gomes, que viu outros seis colegas de turma desistirem do curso, acredita que o centro de exatas deveria pensar em uma maneira de resolver esses problemas. Ele sugere uma nova política de recepção dos calouros, em que os alunos se sintam bem recebidos, e que garanta que sejam ouvidos pelos professores quando estiverem com dificuldades. “O maior problema mesmo é você não ser ouvido no curso de exatas”, diz.

 

LEONARDO

O estudante de letras espanhol Leonardo Feitosa Gomes, que desistiu de física, em seu novo centro de estudos, o CLCH

 

O curso de física licenciatura é integral e ainda exige, segundo Gomes, uma carga muito grande de estudos em casa. Julia Bacchi Mançano, 21, entrou em física licenciatura no mesmo ano que Gomes e hoje está no quarto ano, após ter pensado em desistir “muitas vezes”. Confira no vídeo abaixo seu depoimento sobre a experiência no curso.

 

 

A dificuldade com matérias de exatas não é, porém, unanimidade. Pedro Henrique Takemura, 21, está no quarto ano de matemática bacharelado e nunca pensou em desistir. Segundo ele, no seu curso, professores e alunos têm uma boa relação, diferentemente do que acontecia em física com Gomes. Porém, ele percebe que a evasão no curso é grande (a maior dentre os cursos do CCE, segundo os dados da Proplan, em 67,62%) e sugere que a dificuldade dos alunos é algo que é influenciado pelo ensino de matemática na educação básica e no ensino médio.

 

 

Márcia Cristina da Costa Trindade Cyrino é vice-diretora do CCE (no momento da entrevista, diretora interina) e concorda que a educação básica tem influência nesse quadro de evasão. “Ocorreram nos últimos anos muitas reformulações na educação básica, vários outros problemas surgiram. Tem a própria falta de professor e a qualidade dos professores também caiu muito na educação básica. Do mesmo modo que caiu o processo de formação. Então os alunos chegam na universidade muitas vezes sem os conhecimentos que são necessários para a continuidade dos estudos, principalmente nas áreas de exatas. Isso acontece não só com os nossos cursos, mas, por exemplo, nas engenharias, nas quais muitos alunos entram nos cursos com dificuldades do ponto de vista matemático. Eles vão sentir muita dificuldade com as disciplinas como cálculo e álgebra”, diz Márcia Cristina.

A vice-diretora, que também é professora da licenciatura em matemática, enfatiza, porém, que a desvalorização da profissão de professor associada a uma frustração com expectativas a respeito do curso podem ser as causas para evasão principalmente nos cursos de licenciatura. Segundo ela, o aluno que entra no curso de licenciatura em exatas muitas vezes espera aprender apenas aquilo que vai ensinar na educação básica, e não é isso que ocorre. Quando percebe a desvalorização, também do ponto de vista do reconhecimento profissional, da profissão de professor, a frustração aumenta e os alunos acabam buscando outros cursos que possibilitem seguir outras carreiras. Em alguns casos isso gera apenas a transferência para o bacharelado, mas é também um dos motivos de evasão.

Com variados níveis de dificuldade, os alunos parecem concordar que uma maior receptividade e acolhimento do centro de estudos poderia contribuir para a diminuição da evasão exagerada que é observada nos cursos de exatas. O aluno que estiver com dificuldades e não se sentir apoiado tem uma frustração muito grande que leva à desistência. Esse é um quadro que pode ser observado em qualquer curso, porém o nível muito alto de exigência em dedicação às matérias parece fazer com que essa situação se potencialize nos cursos de exatas.

“Essa atribuição de cuidar dessas questões de evasão, de dificuldades, do ponto de vista pedagógico, da relação com os professores, até mesmo com a própria disciplina é sempre remetida aos coordenadores de colegiado de curso”, explica Márcia Cristina. Facilmente percebida e comprovada em dados estatísticos, essa grande evasão nos cursos de exatas precisa ser, portanto, combatida em conjunto. Alunos em dificuldade precisam falar sobre isso e conseguir mais apoio dos professores e os colegiados também precisam participar desse processo, intermediando os diálogos e preparando os professores para lidarem com o problema em sala de aula.

 

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