Tirando a CNH: como a ansiedade interfere no teste prático

Texto, fotos, áudio e vídeos: Renata Sartori

 

Segunda-feira, 16 de julho de 2018. Às 14h, o portão da 43ª Ciretran (Circunscrição Regional de Trânsito) de Rolândia, unidade de atendimento do Detran (Departamento Estadual de Trânsito) na cidade, se fecha para o público. Do lado de dentro, somente funcionários, uma instrutora e dez candidatos ansiosos aguardando pelo momento que definirá o resto de suas vidas – a prova prática que atestará se eles estão (ou não) aptos a conduzir um automóvel.

 

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Candidatos fazem a baliza, primeira etapa do teste, entre os protótipos brancos que simulam carros

 

Se engana quem pensa que o maior obstáculo na realização da prova é a baliza, o percurso ou a sinalização. A ansiedade é o monstro que ronda os pensamentos dos candidatos nos minutos que antecedem o teste prático. Em dez anos como instrutora de direção de autoescola, Susana Mocci acredita que o nervosismo é responsável pela maior parte das reprovações. “Falar do exame já deixa as pessoas em pânico”, contou. Para tranquilizar os alunos, ela sempre ressalta que os candidatos foram preparados para o teste e que, com mais tempo de prática, se tornarão motoristas habilidosos e confiantes.

 

 

Somente quatro candidatos da Autoescola Santana, de Rolândia, que iriam realizar o teste naquela segunda-feira, venceram a timidez e concordaram em registrar suas expectativas pré-exame. Destes quatro, saíram duas aprovações e duas reprovações.

 

 

Candidatos apelam para a fé, para o cigarro e roem unhas no aguardo por sua vez de serem avaliados. As unhas roídas são de Hernandes Medeiros, já a mão com o terço é de uma candidata que preferiu não dar entrevista, assim como o candidato que estava fumando.

 

Os candidatos Hernandes Medeiros, 18, e Brendhon Henrique, 20, mudaram de um semblante levemente apreensivo, ao chegarem para fazer a prova, para uma expressão de felicidade, depois da notícia da aprovação. Hernandes revelou que estava um pouco nervoso, mas iria manter a fé em Deus para tudo dar certo. “Mas o coração fica a mil”, contou. Brendhon não ficou intimidado por ser sua primeira prova e foi o candidato que declarou estar com a menor ansiedade. “Acho que não me intimida [o fato de fazer a prova pela primeira vez], porque nós treinamos bem”, opinou.

 

 

Depois de serem informados que haviam sido aprovados na prova, foi só alegria. Muito contentes, os meninos mostraram como a habilitação é sinônimo de independência, maturidade e status social. Hernandes já planeja comprar um carro.

 

 

Mas o dia não foi de felicidade para todos. A candidata Joana Kelly Batista da Silva Carvalho, de 26 anos, não teve um desempenho tão satisfatório. Antes da prova, ela havia relatado o desejo de tirar a habilitação. “Preciso muito dessa carteira por causa dos meus filhos, é por eles, para carregar eles”, contou. Joana conseguiu passar pela baliza mesmo com o nervosismo, mas, no percurso, a ansiedade foi maior e ela não conseguiu a aprovação em sua terceira tentativa.

 

 

Com lágrimas nos olhos após descer do carro e saber da reprovação, Joana pediu desculpas por não ter condições de gravar o depoimento em seguida do teste, como havia concordado anteriormente. Consolada pela instrutora Susana, ela pretende treinar mais e realizar um novo teste em breve.

Suelen Cristine de Souza, 28, foi a que declarou estar mais ansiosa, ao fazer o teste pela primeira vez. “Mas vou tentar ficar calma e me lembrar de tudo o que o instrutor passou, de todas as dicas”, disse, antes da avaliação. Bem-sucedida na baliza, a candidata seguiu para o percurso pelas ruas do bairro Alto da Boa Vista e saiu do carro frustrada com a reprovação e também preferiu não dar um depoimento após a prova.

O candidato Hernandes passou pela etapa do percurso com tranquilidade e, apesar de sua alegria, lamentou que Joana e Suelen, que foram avaliadas no mesmo carro que ele, não foram aprovadas. “Foi uma pena que duas amigas minhas que estavam comigo não conseguiram”, comentou. “Mas é só elas não desistirem que daqui para frente elas vão conseguir”, aconselhou o aluno aprovado.

O passo a passo da habilitação

Para dar entrada no processo de primeira habilitação, o candidato deve cumprir alguns pré-requisitos: ser penalmente imputável – o que quer dizer que ele deve ser maior de idade e poder responder criminalmente e judicialmente pelos seus atos –, saber ler e escrever, apresentar um documento oficial com foto, mais o documento de CPF (Cadastro de Pessoa Física) original ou documento que contenha o número do CPF e um comprovante original de residência (conta de água, luz ou telefone) emitido há no máximo 90 dias.

A primeira etapa é uma avaliação psicológica e, em seguida, o candidato se submete a um exame de aptidão física e mental, que avalia aspectos como visão, memória e atenção. Ao ser considerado apto nestas avaliações, o candidato deve realizar o curso teórico-técnico, com carga horária mínima de 45 horas/aula. Então, ele realiza o exame teórico para testar os conhecimentos assimilados no curso e deve acertar no mínimo 21 das 30 questões propostas.

Com a aprovação nesta prova, se encerra a parte teórica, mas o aguardado momento de pegar no volante nas ruas da cidade ainda tem que esperar. Os candidatos que abriram processo a partir de 2016 são obrigados a fazer cinco horas/aula em um simulador de direção veicular. Em seguida, o aluno pode agendar as aulas práticas.

O curso prático de direção veicular pressupõe que o aluno realize no mínimo 20 horas/aula com a autoescola. Porém, se ele ainda não se sentir seguro para realizar o exame prático de direção veicular, pode comprar pacotes de aulas extras diretamente com sua autoescola. Em caso de reprovação, tanto na prova téorica como na prática, o aluno deverá procurar sua autoescola para marcar um novo teste após 15 dias, mediante pagamento de taxas.

Quando aprovada no teste prático de direção, em cerca de uma semana, a pessoa recebe em seu endereço uma habilitação chamada Permissão para Dirigir, que tem validade de 12 meses. Após este período, o condutor poderá solicitar a Carteira Nacional de Habilitação, desde que o mesmo não tenha cometido nenhuma infração de natureza grave ou gravíssima nem seja reincidente em infração média. Em alguns casos, o Detran enviará uma correspondência para seu endereço contendo a guia para pagamento da taxa referente à impressão e envio da CNH definitiva. Todos os detalhes estão disponíveis no site paranaense do departamento.

O Detran disponibilizou para sistemas Android e Apple, o aplicativo Detran/PR 1ª Habilitação. Nele, o candidato a motorista pode controlar cada etapa da habilitação e acompanhar o passo a passo de todo o processo, com agenda de exames e aulas, consulta de taxas e resultados, além de poder fazer um simulado do teste teórico de direção.

 

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Prints da versão para Android mostram funcionalidades do aplicativo

 

Mas como enfrentar a ansiedade?

A ansiedade pode ser explicada dentro de um espectro que tem como características algumas sensações subjetivas como inquietação, nervosismo, medo, preocupação exagerada com o futuro e outros sintomas como sensação de aperto no peito, “vazio no estômago”, tremores, calafrios, sudorese, formigamentos e cólicas abdominais. “Por se tratar de um espectro de doenças podemos pensá-la como uma mesa com vários objetos em cima: cada um desses objetos representa uma doença específica, porém todas possuem a mesma base, que é a ansiedade. Dentro deste espectro podemos ter: transtorno de ansiedade generalizada, transtorno de ansiedade de separação, fobias específicas, fobia social, transtorno de pânico, agorafobia, ansiedade induzida por substâncias (medicamentos ou drogas ilícitas) ou por condições clínicas”, detalhou Erick Leonardo N. Antonechen, médico residente em psiquiatria pela UEL (Universidade Estadual de Londrina).

O médico destaca que a ansiedade não é necessariamente algo negativo, pois ela é capaz de deixar as pessoas alertas e mais preparadas para adversidades, funcionando como um mecanismo de defesa.  Porém, em alguns casos, esse transtorno pode ser prejudicial quando se torna crônico ou patológico e traz sofrimento psíquico e/ou prejuízos sociofuncionais. “São casos em que não se consegue sair de casa para realizar o teste, bloqueio para falar com outras pessoas, evitação de situações semelhantes, medo antecipatório e angústia intensos e até mesmo ataques de pânico”, exemplificou. Cada pessoa apresenta comportamentos diferentes frente ao medo e à ansiedade. Como listou Antonechen, as reações podem incluir taquicardia, sensação de branco na cabeça, paralisia e medo intenso, o que prejudica a atenção e o desempenho durante os testes.

Entendendo como a ansiedade se manifesta, fica mais fácil encontrar meios de mantê-la sob controle ou pelo menos de diminuir seu efeito antes da realização do teste prático ou de qualquer situação em que ela possa interferir de forma negativa. O sono de qualidade é um importante aliado no enfrentamento da ansiedade. O médico recomendou deitar-se em horários regulares, sem estímulos visuais, com alimentações leves. Além disso, no momento em questão, ter a companhia de alguém conhecido e que transmita confiança e praticar exercícios de respiração lenta e profunda e de imaginação – se imaginar em um ambiente agradável e familiar, por exemplo.

Terceiros que notarem uma pessoa em crise de ansiedade podem auxiliar, oferecendo a ela um lugar calmo, tranquilo e reservado, longe de muitos estímulos. É importante explicar à pessoa que essa sensação irá durar apenas alguns minutos e, se for necessário, poderá levá-la a um atendimento médico. “Quando estes sintomas de ansiedade ultrapassam o esperado deve-se procurar um profissional habilitado, como um médico psiquiatra ou psicólogo. Além de medicações próprias para cada patologia, atualmente existem diversas formas de psicoterapias que auxiliam no autoconhecimento, controle de situações aversivas, crenças criadas pela pessoa e com enfoque na atenção plena”, aconselhou Antonechen.

 

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