Em sete dias, a bailarina Sônia Secco foi da morte à vida

Texto e áudio: Mateus Reginato

 

Um dia amanheceu ruim. Assim começou – e quase terminou – a jornada de Sônia Secco. O corpo febril, dores no fundo dos olhos e na cabeça. Já sentia as dores havia alguns dias, mas dessa vez estava pior. Um alerta apitava em sua mente: aos 42 anos, ela era parte do grupo de risco durante a pandemia de gripe suína H1N1 que tomou parte do mundo naquele ano de 2009. Até aquele momento, 22 de agosto, 510 pessoas haviam morrido no Brasil por causa da doença, além de outros 26,9 mil casos confirmados, segundo dados da Organização Mundial da Saúde.

No dia seguinte, um domingo, a professora de balé estava no consultório do médico. Mas logo foi dispensada, ao ouvir do doutor que não estava com os sintomas da gripe. Não foi feito qualquer exame.

À época, o marido de Sônia viajava a trabalho todos os domingos. Ou seja, estava sozinha em casa com o filho de cinco anos, também parte do grupo de risco.

 

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Sônia ficou 12 dias internada no hospital, entre 30 de agosto e 11 de setembro de 2009 (Crédito: Reprodução/YouTube)

 

Acordou na madrugada de terça-feira. O pijama encharcado de suor. A cabeça e o pescoço como uma bomba prestes a explodir. Ligou para a mãe, que morava do outro lado da cidade. Em cinco minutos, os pais de Sônia chegaram à casa. O avô ficou com a criança, enquanto ela e a mãe partiram rumo ao hospital.

Exames feitos. Com a chapa da radiografia em mãos, o médico apontou para uma grande área acinzentada no pulmão direito de Sônia. Uma mancha, como dizem no jargão clínico. H1N1.

Sônia ficou três dias internada no Hospital Evangélico, em uma ala isolada para os pacientes de H1N1. Entrou sozinha, com o pijama que estava. No final da tarde de quinta-feira (27 de agosto), teve alta e foi para o internamento domiciliar, já que o hospital precisava liberar espaço para novos pacientes da doença.

Isolada em casa, Sônia continuou o tratamento com Tamiflu, medicamento indicado para a gripe A. De quinta a domingo, dia em que o remédio acabaria, ela deveria melhorar. Mas o contrário acontecia. Pálida, com falta de ar, cansada e com dor. Muita dor. Em particular, uma dor no peito. “Se eu conseguisse tocar dentro de mim, eu pegava essa dor”, relembra Sônia.

 

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Em meio às trevas, a bailarina passou quatro dias em coma lutando, com apenas 5% de chance de sobreviver (Crédito: Reprodução/YouTube)

 

Sônia foi internada pela segunda vez no dia 30 de agosto, domingo. Preocupado com a dor no peito da paciente – próxima ao estômago – o médico pediu uma bateria de exames. Uma endoscopia estava marcada para a manhã do dia seguinte, segunda-feira.

“Depois que fui internada no domingo à noite, eu já não me lembro de mais nada. Tudo o que sei foi o que os médicos e minha mãe me contaram”, revela Sônia depois de quase nove anos de todo o ocorrido.

Na manhã de segunda-feira, Sônia precisou ir de cadeira de rodas para a sala onde seria realizada a endoscopia, já mal conseguia ficar de pé.

Deitar uma pessoa com muita falta de ar nem sempre é uma boa ideia, como a própria bailarina conta. Essa era a situação de Sônia na maca, esperando o remédio que a faria dormir fazer efeito para que o exame começasse.

Ao invés de dormir, a dor de Sônia voltou. Dessa vez com mais intensidade do que nunca. Muita dor no peito. Muita dor. A médica gastroenterologista responsável pela endoscopia mais tarde contou à Sônia que, sem saber bem o motivo, suspeitou que o problema fosse no coração e não no estômago. Em urgência, a médica ligou para o cardiologista de plantão no hospital, Luciano Rodrigues, que, por algum milagre, estava no mesmo corredor em que Sônia faria a endoscopia.

“O que a senhora está sentindo?”, perguntou o médico ao entrar na sala.

“A Senhora está no Céu”, brincou Sônia. “Estou com uma dor aqui”, disse, apontando para o peito. “Se você fizer um buraco, eu consigo pegar a minha dor.”  Estas foram as últimas palavras de Sônia antes de morrer.

 

 

O médico beliscava a mão negra e inchada de Sônia quando ela acordou dos quatro dias em coma. O braço direito gangrenou depois de ficar amarrado durante os oito choques que a ressuscitaram da parada cardiorrespiratória.

A equipe de cardiologia demorou cerca de 15 minutos para chegar até a sala onde seria feita a endoscopia em Sônia. Pouco depois que Luciano Rodrigues entrou na sala, ela sofreu uma parada cardiorrespiratória. O médico, então, só teve tempo de subir em cima da maca, começar uma massagem cardíaca e gritar para que a equipe dele fosse chamada. Foi quase uma hora para que a bailarina voltasse à vida. O procedimento diz que o número máximo de choques que um paciente deve levar é de quatro, para evitar qualquer tipo de sequela irreversível. Sônia voltou depois de oito choques, sem nenhuma sequela. Até hoje as manchas do desfibrilador estão em seu peito.

 

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Sônia ouviu da boca do médico que precisaria ficar meses no hospital; uma semana depois, recebia alta (Crédito: Reprodução/YouTube)

 

O vírus H1N1 do pulmão de Sônia sofreu uma mutação e invadiu o seu coração. Uma miocardite aguda causada pela gripe A. Durante o coma, ficou entubada. Desenganada, com apenas 5% de chance de sobreviver, conta ela anos depois.

A parada cardiorrespiratória foi na segunda-feira (31 de agosto). Sônia acordou na sexta-feira (4 de setembro) achando que ainda era segunda. Quando soube de tudo o que aconteceu, pela boca do médico, foi informada de que ficaria meses no hospital, fazendo exames para tratar as sequelas que provavelmente teria. Uma semana depois, no dia 11 de setembro, Sônia saía da UTI (Unidade de Terapia Intensiva).

“Passei uma semana lutando pela minha vida”, conta ela sobre o período. Sônia perdeu 30 kg, não conseguia ficar em pé, andar, se esticar nem se apoiar. Na primeira vez em que se levantou, com a ajuda de um médico durante a fisioterapia, o esforço foi tão grande que precisaram trocar a roupa dela depois, por causa do suor.

 

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Em 2018, nove anos depois de sua jornada, Sônia ainda se lembra de agradecer todos os dias a Deus pela sua segunda vida (Crédito: Reprodução/YouTube)

 

Sônia foi internada em 30 de agosto de 2009 e recebeu alta no dia 11 de setembro. Leva como cicatrizes alguns problemas no braço direito, uma voz mais rouca devido ao entubamento e uma nova vida.

“Quando recebemos a notícia de que outra pessoa morreu, conseguimos superar isso. Agora, receber a notícia de que eu morri… Eu só conseguia pensar nas pessoas que eu amava. Meu filho, meu marido”, relembra Sônia.

A professora de balé agora tem dois aniversários. Em 2 de junho deste ano ela completou 51 anos. Em 31 de agosto, completará nove anos de sua segunda vida.

 

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