Terror nacional ganha força com nova geração de cineastas

Texto e áudios: Marcelo Silva

 

Imagem 1 - As Boas Maneiras

Em “As Boas Maneiras”, São Paulo se torna cenário de uma história de lobisomem e contrastes sociais (Crédito: Reprodução/IMDB)

 

Padres exorcizando uma mulher, lobisomem solto em São Paulo, zumbis no mangue, chupacabras se envolvendo em um conflito entre famílias. Essa é a mais nova cara do cinema nacional de terror, que vem ganhando espaço em festivais, mostras e plataformas de streaming.

Diretor de longas como “Mangue Negro”, “A Noite do Chupacabras” e “Mar Negro”, o cineasta capixaba Rodrigo Aragão, de 41 anos, alia uma pegada trash a situações, personagens e enredos tipicamente brasileiros – muitos deles, inclusive, são inspirados no folclore nacional. Tendo José Mojica Marins (dos filmes “À Meia-Noite Levarei Sua Alma”, “Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver”, “Ritual dos Sádicos” e intérprete do icônico Zé do Caixão) como grande inspiração, Aragão trabalha com orçamento limitado: “Mangue Negro”, seu longa de estreia, foi orçado em R$ 65 mil, valor considerado irrisório para uma produção cinematográfica. Para ele, o terror nacional vive o seu melhor momento.

“O ano de 2008 foi considerado um ano sem precedentes porque três filmes de terror estavam sendo produzidos: ‘Encarnação do Demônio’, ‘A Capital dos Mortos’ e ‘Mangue Negro’. Antes disso, a produção era praticamente nula. Hoje se produz muito mais e eu acho que o terror brasileiro está na moda – a grande maioria das produtoras tem algum projeto ligado ao gênero”, afirma Aragão. O cineasta, no entanto, considera que ainda há muito a melhorar. “Até hoje não tivemos um sucesso de bilheteria e eu acredito que esse é o próximo degrau.”

 

 

Imagem 2 - Mata Negra

Orçado em R$ 630 mil, “A Mata Negra” é o primeiro filme de Aragão a receber recursos de edital da Ancine (Agência Nacional de Cinema) (Crédito: Reprodução/IMDB)

 

Em maio, “A Mata Negra”, o mais novo filme de Aragão, abriu a 14ª edição do Fantaspoa (Festival de Cinema Fantástico de Porto Alegre) e, no dia 27 de julho, foi exibido durante a programação do 13º Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo. Além disso, o longa teve um trecho de dez minutos exibido durante a mostra comercial Blood Window, que compôs a programação do Festival de Cannes, realizado na França em maio. Na trama, uma jovem (vivida por Carol Aragão, filha do diretor) encontra na floresta o livro perdido de Cipriano e, na tentativa de trazer o namorado de volta à vida, liberta um terrível mal. Também estão no elenco os atores Jackson Antunes (“O Palhaço”), Clarissa Pinheiro (“Casa Grande”), Francisco Gaspar (“A Estrada 47”), Markus Konká (“Mar Negro”), entre outros.

 

 

Quem também tem sido presença constante em festivais é a dupla Marco Dutra, 38 anos, e Juliana Rojas, 37. “As Boas Maneiras”, o mais recente filme dirigido pelos dois, ganhou em seis categorias na última edição do Festival do Rio – incluindo Melhor Longa de Ficção, Melhor Atriz Coadjuvante (para Marjorie Estiano) e Melhor Fotografia – e levou o Prêmio do Júri no Festival de Locarno de 2017, na Suíça. A história traz Ana (Marjorie Estiano), uma jovem rica e solitária de São Paulo que contrata Clara (Isabél Zuaa), uma mulher negra da periferia, para auxiliá-la nas tarefas domésticas e cuidar do filho que está para nascer. Até que uma noite de Lua cheia muda para sempre a vida das duas mulheres.

 

Imagem 3 - As Boas Maneiras

“As Boas Maneiras” foi o grande vencedor do último Festival do Rio (Crédito: Reprodução/IMDB)

 

“Quando você estreia em um festival grande, fica mais fácil conseguir um mercado um pouco maior. Os nossos filmes não são terror puro: eles têm uma camada a mais, o que acaba agradando especialmente o público europeu”, afirma Dutra. Ele explica que “As Boas Maneiras” mostra o contraste social entre a parte rica e a parte pobre de São Paulo ao mesmo tempo que traz elementos de outros gêneros, como canções normalmente vistas em musicais.

“O terror nacional já está mudando e eu estou bastante otimista com essa nova geração. Mas acho que é cedo para afirmar que estamos no nosso melhor momento, até porque no passado, com os filmes do Mojica, houve um ciclo de sucessos de bilheteria que ainda não tivemos”, diz o cineasta, que já tem dois projetos pela frente. Em “Todos os Mortos”, Dutra vai trabalhar ao lado do diretor Caetano Gotardo em um filme ambientado no Brasil do final do século 19. As filmagens devem começar em outubro deste ano. Já o outro projeto é uma história de casa mal-assombrada que Dutra pretende desenvolver junto com Juliana Rojas, repetindo mais uma vez a parceria com a diretora – além de “As Boas Maneiras”, os dois dividiram a direção no longa-metragem “Trabalhar Cansa” e em sete curtas.

Exorcismo à brasileira

O relógio marcava três horas da madrugada quando o cineasta Renato Siqueira, de 38 anos, acordou assustado com os gritos de Regan McNeil (interpretada por Linda Blair), a garota possuída de “O Exorcista”, clássico dirigido por William Friedkin em 1973. Passado o susto, Siqueira se perguntou: “por que não uma história de exorcismo no Brasil?”. Surgia, então, a ideia de “Diário de um Exorcista – Zero”.

 

exorcismo

Dirigido por Renato Siqueira, “Diário de um Exorcista – Zero” levou quatro anos para ficar pronto e envolveu um elenco de 27 atores (Crédito: Reprodução/IMDB)

 

“Foram quatro longos anos para finalizar essa obra. Todo dinheiro investido saiu do meu bolso”, explica Siqueira, que acumulou as funções de diretor, roteirista, produtor, montador, técnico de efeitos visuais e ainda interpretou o protagonista do filme, o padre exorcista Lucas Vidal. Lançado em VOD (vídeo on demand) em 2016 pela Europa Filmes, “Diário de um Exorcista – Zero” chegou ano passado ao catálogo da Netflix. “Enviei meu longa-metragem para 14 distribuidoras, as melhores do país, e 12 delas se mostraram bastante interessadas. O filme foi se espalhando até cair nas graças da Netflix. Sinceramente, não esperava que fôssemos tão longe”, explica o cineasta. De acordo com ele, o plano é levar aos cinemas mais três filmes que trarão novos arcos e personagens à trajetória do padre Vidal – o primeiro deles, inclusive, tem filmagens previstas para iniciar no fim deste ano.

Da distribuição ao preconceito

Apesar da produção prolífica, os cineastas precisam enfrentar obstáculos que vão da dificuldade de distribuir o longa ao preconceito de investidores e do público. “A distribuição é um ponto difícil. Com tantos filmes norte-americanos chegando a cada semana, é uma luta manter o seu longa em cartaz”, alega Dutra. Com Aragão, o problema é ainda mais nítido: o diretor relata que tem sido muito mais fácil distribuir os seus filmes no exterior do que no Brasil. “Mangue Negro” e “A Noite do Chupacabras”, por exemplo, ganharam edições em DVD no Japão. “Meus filmes têm uma aceitação muito melhor em outros países. O mercado internacional do gênero terror está ávido por coisas diferentes e, nesse sentido, a América Latina tem muito a oferecer”, diz.

Mesmo tendo conseguido uma distribuidora para “Diário de um Exorcista”, Siqueira acredita que filmes de terror são vistos como investimentos poucos seguros. “As empresas ainda ficam com o pé atrás de investir em produções do gênero fantástico, preferindo comédias românticas ou longas que mostrem a realidade das favelas do nosso país, pois sabem que ali terão retorno garantido.” O diretor também reclama da falta de espaço na mídia e do preconceito do público. “Na época da pornochanchada, se instalou o pensamento de que o cinema brasileiro é só putaria”, critica, fazendo referência às comédias eróticas nacionais que foram sucesso na década de 1970. “Estamos lutando para mudar essa mentalidade que foi se espalhando de geração em geração.”

 

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