Mesmo sem saber, você pode influenciar a moda; entenda

Texto, fotos e áudios: Heloisa Keiko

 

Você pode não se interessar por ela – mas é inegável que a moda influencia diretamente na sua forma de vestir. Mas o que muita gente não sabe é que o inverso também acontece: se você já usou um meme, se interessa por influências culturais de décadas passadas ou passou a comprar roupas mais baratas e versáteis quando o bolso apertou, pode ter certeza: você também ajudou a influenciar a moda.

Ao contrário do que parece, as tendências na moda não são criadas por estilistas, designers ou pela alta costura – mas, sim, por eventos históricos, grupos e movimentos sociais. Segundo a professora e uma das criadoras do curso de design de moda da UEL (Universidade Estadual de Londrina) Cleuza Fornasier, a moda se altera baseando-se na necessidade dos grupos sociais. “A partir dos anos 1950, a moda passa a ser ditada por indivíduos emergentes, que colaboram, mesmo sem saber, para que a moda seja reutilizada ou ressignificada. As tendências, hoje, se olham a partir dos usuários, da moda da cidade, que instigam a tendência.”

Os exemplos são vários: desde a inserção das minissaias nas tendências da década de 1960, que foi inspirada pelas jovens londrinas, até a jaqueta “bomber”, utilizada na década de 1940 pelos aviadores, retomada na década de 1980 e, atualmente, ressignificada pelos estilos punk e grunge e levada, novamente, às araras. Seja na alta costura ou na moda casual, as tendências, agora, são ditadas “de baixo para cima, e não de cima para baixo, como era há 70 anos”, afirma Cleuza.

Além do contexto social, grandes eventos históricos, movimentos culturais e econômicos também influenciam diretamente na moda. Fernando Stein, designer gráfico e fotógrafo de moda e beleza que atuou por quatro anos como estilista, explica que, nas décadas de 1930 e 1940, durante a Segunda Guerra Mundial, produtos como tecido e aviamento estavam em falta para a confecção de roupas, já que eram fabricados na Europa, onde se dava o conflito. “O reflexo imediato na moda foi a redução da silhueta feminina e a influência militar no design das peças, deixando-as com um aspecto mais masculino e sóbrio”, afirma. Já nos anos 1950, após o término do conflito, tudo mudou: “as saias ficaram volumosas, as cores das roupas eram mais vivas e o estilo tinha muita influência do cinema e da música. Era o retorno da vida social”, completa Stein.

 

 

Para o designer, essas questões econômicas, sociais, políticas e culturais são os principais fatores que influenciam a moda. “Nos vestimos para comunicar que somos de determinada cultura, região, época… As roupas servem para muitas coisas além de apenas vestir.” Segundo Cleuza, após o ataque às Torres Gêmeas, em 2001, a tendência foi usar estampa camuflada e as bandeiras nacionais, por causa do nacionalismo exacerbado. O mesmo aconteceu no Brasil recentemente: “O baque da economia brasileira, por exemplo, trouxe de volta o preto. O preto não é tendência no mundo, mas é uma roupa que não estraga, que engana muito bem, mais eterna”, explica a professora.

Ressignificação

Mesmo que a moda seja a grande responsável pela forma como as pessoas utilizam as roupas, muitas vezes a ressignificação das peças parte dos próprios usuários. “Durante as manifestações a favor do impeachment [de Dilma Rousseff], em 2016, a camiseta da seleção brasileira de futebol foi ressignificada. Quando pessoas de verde e amarelo eram vistas na rua não se pensava em futebol, e sim nesse posicionamento político”, afirma Stein. “Já em 2018, na Copa do Mundo, essa roupa voltou a ter o seu significado original. O que uma mesma roupa comunica varia de acordo com o contexto histórico e social em que ela está inserida”, completa.

Para Cleuza, a ressignificação também se dá em outras situações: “Estamos voltando à era do jeans – que foi superproduzido na década de 1960 pelos modernos, fazendo referência a personalidades como James Dean e Marlon Brando. Depois, nas décadas de 1980 e 1990, tudo era feito nesse material: roupas de banho, short, saia, calça, vestido… agora, ressurge a ‘jeans mania’, só que com um aspecto mais pobre, surrado, o “destroyed”. Assim, o jeans passa a ter outro significado, ligado ao pauperismo [movimento artístico que valoriza a pobreza]”, explica a professora.

 

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Representação do jeans “destroyed” e a referência ao pauperismo (Modelo: Isabella Saito)

 

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Representação da utilização do preto no cotidiano brasileiro, que tem como um dos fatores de influência o baque na economia (Modelo: Mariana Sanches)

 

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Representação de cores e estampas que fazem referência ao militarismo, trazido como tendência na moda em períodos de conflito e nacionalismo, como em setembro de 2001, com o ataque às Torres Gêmeas (Modelo: Ricardo Bortolatto)

 

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Representação da ressignificação das cores verde e amarelo, comuns em época de Copa do Mundo, e nas manifestações a favor do impeachment de Dilma Rousseff em 2016 (Modelo: Victória Vischi)

 

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O ensaio fotográfico produzido para esta matéria é uma reinterpretação dos conceitos de moda apresentados pelos profissionais da área durante as entrevistas. Ele foi produzido com o único objetivo de ilustrar a teoria utilizando roupas de um contexto histórico e social que pode não ser o mesmo em que a tendência representada estava inserida.

 

“Cool hunter”

Essas influências de elementos da sociedade na moda, no entanto, não se dão por acaso. Segundo Fernando Stein, existe um profissional – o “cool hunter” – que investiga o comportamento de grupos sociais e o impacto de eventos econômicos, políticos e culturais entre os consumidores. “Esses profissionais usam essas informações para criar tendências de moda e de consumo que influenciam o que será usado nas coleções”, diz.

Basta ir a museus ou ver filmes antigos para perceber que a forma como as pessoas se vestem diz muito sobre a época em que vivem. Desde os séculos anteriores, em que as roupas eram um meio de hierarquização e segregavam nobres de plebeus, até os dias de hoje, em que a maior diversidade de roupas nas araras permitiu que grupos sociais as utilizassem para definir seu estilo, a roupa comunica.

 

 

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