Fome e doenças marcaram trajetória de pioneiro de Ibiporã

Texto, áudio e vídeos: Matheus Camargo

 

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O aposentado José Bonfim Ledo faz visitas semanais ao sítio em que morou (Crédito: Matheus Camargo)

 

Foram 1.800 km de caminho percorrido. Tão longos quanto os 82 anos de vida que carrega o aposentado José Bonfim Ledo, que chegou a Ibiporã em 1942 vindo do pequeno município de Rio de Contas, no interior da Bahia.

“É… Ninguém sabe o que é a miséria igual eu sei, viu?”, relembra, voltando mais de sete décadas no tempo. “Eu saí de Rio de Contas, lá do sertão mesmo, e fui até Bromado, em Minas, a pé. Eu, cinco irmãos e meus pais, só para pegar um trem rapaz, acredita?”

A pé, de trem e de pau-de-arara, a família de José Bonfim Ledo passou ainda por São Paulo antes de chegar ao norte do Paraná. As lembranças da viagem já não são tão frescas assim na memória, mas a lembrança do que era aquela terra na época ainda são claras.

 

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Em um dia de visita ao sítio, José fez questão de mostrar à reportagem um acidente de trem que havia acontecido algumas semanas antes; o vagão ainda estava lá (Crédito: Matheus Camargo)

 

O norte do Paraná era uma terra muito mais fria do que estavam acostumados no Nordeste e iniciava uma época de ouro na agricultura.

“Chegamos na Vila Casoni e dormimos na casa de um tal de “véio” João Cláudio. Estava geando, ficamos sem roupa, sem nada, aquela pobreza que olha… Ficamos um tempo lá, tinha muita mandioca. Meu pai achou lugares dentro de Londrina que se fosse hoje, rapaz…”, lembra da chegada ao estado. “Mas o dinheiro era pouco, não dava para comprar. Aí ele veio para Ibiporã e tinha essas terrinhas no Engenho de Ferro. Ele deu as economias que a gente tinha de entrada e trabalhamos três anos de graça pra pagar o resto.”

A Comarca de Ibiporã foi instalada em 1947, cinco anos após a chegada da família Bonfim Ledo à região. Um dos pioneiros do município, José já participou de documentários produzidos pela prefeitura sobre a história da cidade.

 

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José se surpreendeu com os destroços do acidente ainda ali; as marcas de expressão deixadas pelo tempo no seu rosto são perceptíveis (Crédito: Matheus Camargo)

 

Sua mãe morreu pouco tempo após chegarem ao destino. Foi infectada com maleita, nome pelo qual chama a malária. A doença também o atingiu, mas José afirma ter escapado por “não ser a hora de morrer”. Só tinha sete anos.

Viu tudo ser criado no município de Ibiporã. Acompanhou o crescimento da zona urbana, conheceu o primeiro médico, o primeiro alfaiate, esteve perto da construção da Igreja Matriz, um dos pontos mais conhecidos da cidade.

Passou por dificuldades como poucos. O tempo de incerteza só se encerrou quando seu pai finalmente se instalou com a família em um sítio no Engenho de Ferro, zona rural da cidade. “A gente já plantou de tudo, do algodão ao café, mas agora é tudo soja… Eu tenho tanta saudade.” José jamais superou a obrigação em deixar o sítio.

 

 

O trabalho foi tão importante na vida que foi por lá que conheceu a esposa. Conta com orgulho como andava mais de 4 km, em um percurso de terra, cheio de pedregulhos, onde o breu tomava conta e só se guiava pela lua, apenas para ver a amada Nair Fávaro.

Se emociona ao lembrar da esposa, mãe de seus dois filhos, e que morreu em 2000 em decorrência de complicações em uma cirurgia para a retirada de um tumor. “Tanto aqui em baixo quanto lá em cima [no terreno do sítio], quanto a mulher me ajudou… Nossa, vida… Fiquei casado aqui 30 e tantos anos”, relata.

O amor pela esposa, pela vida no sítio e pela família deram o rumo à vida de José Bonfim Ledo. A perda dos dois primeiros o abalou profundamente. Ele se orgulha de nunca ter sofrido por nenhum problema físico – “tem um monte de gente da minha idade cheia de problema e eu não tenho nada” –, mas se entristece profundamente pela saudade de outros tempos, caminho que o levou à depressão.

Diagnosticado há poucos meses com a doença, começou com os medicamentos para ajudar no tratamento do problema, mas pouco fala sobre o assunto, prefere outro tipo coisa para se sentir melhor: voltar ao lugar que mais ama.

O sítio está arrendado para um agricultor de Ibiporã, que administra as terras e planta por temporada. No período da entrevista, os seis alqueires de terreno estavam ocupados por milho. “Antigamente era uma coisa tão bonita, aquele café, aquela plantação grande. Hoje é essa rocinha aqui.”

 

 

Futuro da família e volta a Rio de Contas

José Bonfim Ledo sempre se orgulhou da família. Mesmo que não transpareça isso a eles mesmos, sempre faz questão de jorrar elogios ao filho, Roberto, e à filha, Sueli. São quatro netas, todas maiores de idade, e o agora avô criou um novo costume: visitá-las em seus respectivos trabalhos.

 

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José em uma das visitas rotineiras à fábrica dos filhos, no centro de Ibiporã (Crédito: Matheus Camargo)

 

Em uma tarde, vai ao hospital da cidade saber como está uma delas, biomédica no local, no outro dia vai ao Fórum Municipal, onde a outra, estudante de direito, faz estágio. As outras duas trabalham no negócio que Roberto e Sueli mantêm, uma fábrica de lingerie no centro de Ibiporã – local onde José visita diariamente. “Eu sempre quis que eles atingissem os objetivos deles. Tanto que quando o Roberto conseguiu entrar na faculdade eu tentei ajudar de algum jeito, não sei se consegui, mas tentei sempre.”

 

 

O aposentado sempre fez questão de deixar claro que teve poucos sonhos na vida. Entretanto, um deles sempre mexeu com o coração: conhecer a terra que deixou quando ainda era criança, local que lembrava vagamente, mas que cresceu ouvindo histórias do pai.

Rio de Contas é um município de pouco mais de 13 mil habitantes localizado na região central da Bahia. É o sertão extremo, clima seco, árido, terra batida e casas que remetem às décadas passadas. Quem conta isso é o próprio José Bonfim Ledo, que teve seu sonho realizado pelos filhos no último dia 8 de julho, quando partiram de carro, com outros familiares, para conhecerem a cidade natal do patriarca da família.

“Foi a coisa mais linda, viu? Eu nem gosto de viajar, confesso que reclamo, mas dessa vez eu gostei demais da conta de ver tudo aquilo, passou um filme na minha cabeça.”

Foram dois dias e meio de viagem. Por lá, incrivelmente reencontrou alguns familiares distantes que nunca tinha ouvido falar. Até pela curiosidade, descreveu o lugar como um “povoado, onde todo mundo conhece todo mundo”.

 

Foto 6 - Arquivo

Casa onde nasceu no município de Rio de Contas, na Bahia (Crédito: Arquivo pessoal)

 

O momento que mais o tocou na viagem foi quando viu a casa em que ele e todos seus irmãos nasceram. Confessa que, mesmo com toda a sua dureza, chorou. Mesmo não se lembrando daquele lugar, sentiu algo que jamais havia sentido.

“Olha, nós vimos tudo na cidade, foi realmente fora de tudo o que eu já vivi. Eu digo para você, não sei se volto para lá um dia, nem sei se eu aguento, mas valeu demais.”

 

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