Mais de 50% dos transplantados do coração morrem 2 anos após cirurgia

Texto, fotos e áudios: Fernando Buchhorn

 

Após 30 dias, 27,6% morrem. Em 180 dias são 38,7%. Após um ano, apenas 56,5% sobrevivem à operação. Em dois anos, mais da metade dos transplantados do coração não resiste ao procedimento; um drama que permeia os operados e suas famílias. O número de óbitos relacionados à cirurgia não para por aí. Sobe para 54,2% no terceiro ano; 55,2% no quarto e 57,9% após o quinto ano. Esses são dados registrados e pouco divulgados pela Sesa (Secretaria de Estado da Saúde do Paraná), que mapeou a sobrevida de pacientes transplantados cardíacos no estado de 2012 a 2016, último ano da pesquisa.

Há dois anos e quatro meses transplantado, Ercílio Bezerra da Motta, 54, já é parte da minoria de operados que sobrevive ao segundo ano. Apesar de levar hoje uma vida tranquila, nem sempre foi assim. Em 2012, após uma febre reumática, o aposentado desenvolveu uma insuficiência cardíaca que o fez passar por uma cirurgia de troca da válvula mitral, responsável por controlar a passagem de sangue entre as câmaras do lado esquerdo do coração. A recuperação longa e delicada não foi capaz de evitar que Motta contraísse uma endocardite, infecção que o deixou 37 dias internado em estado grave no hospital. E quando parecia não haver mais possibilidades de piorar, Motta teve de passar por sessões de hemodiálise por conta dos fortes antibióticos que afetaram seus rins. Debilitado, a ele foi sugerido o transplante de coração como meio de aumentar o tempo e a qualidade de vida.

 

Foto 1

Ercílio Motta já é parte da minoria de operados que sobrevive ao segundo ano

 

A preparação para entrar na fila de espera foi longa. Oito meses de acompanhamento com psicólogos, nutricionistas e equipe médica. Até a família do aposentado teve de ser orientada. Para Ercílio, esse momento foi muito tenso. A espera o deixava angustiado, apesar de não ter sentido medo em nenhum momento. Após a recuperação tranquila, os resultados foram percebidos pouco tempo depois da cirurgia. Ercílio conta que entrou no centro cirúrgico às 17h de uma segunda-feira e quando acordou, na terça-feira, até a sua cor estava diferente.

A rotina precisou mudar bastante para que o corpo se acostumasse ao novo coração e não tivesse complicações. Ercílio seguiu à risca as recomendações do médico e da nutricionista. Hoje, ele diz que come de tudo e não tem restrições alimentares. O que mais o emociona é a oportunidade de poder estar com a família.

 

Foto 2

Ercílio seguiu à risca as recomendações do médico e da nutricionista, tudo para poder estar com sua família por mais tempo

 

 

Seguir à risca as recomendações médicas e nutricionais: esse é o segredo para se ter uma boa sobrevida após o transplante do coração, segundo o médico cardiologista Arnaldo Okino.

Atuante na área há 23 anos, Okino lamenta os números de pacientes transplantados mortos após a cirurgia e reconhece que são dados perigosos, principalmente porque se divulgados de maneira descontextualizada podem desmotivar pessoas a doarem órgãos ou a realizarem o transplante.

O médico ressalta que a maioria dos pacientes que não resistem à operação, seja 30 dias ou cinco anos depois, morre por motivo de rejeição aguda logo após a cirurgia ou infecções oportunistas pós-operatórias, decorrentes, segundo ele, da baixa imunidade adquirida pela ingestão dos medicamentos imunossupressores.

Outro ponto destacado pelo médico é que, apesar de serem extremamente necessários e reduzirem a imunidade do transplantado, os medicamentos acometem os pacientes a efeitos colaterais, como mudanças nos níveis de glicemia e problemas renais que podem evoluir para quadros de insuficiência. “Vários desses pacientes não são tratados de maneira adequada [antes da cirurgia], demoram para ser diagnosticados com miocardiopatias, acabam emagrecendo nesse meio tempo e perdem condições emocionais, nutricionais e clínicas ideais para o transplante.” Esses fatores pré-operatórios, somados às condições pós-operatórias, aumentam o risco de mortalidade, lamenta o médico.

 

 

Os dados são alarmantes, mas Okino lembra que ainda há pacientes seus vivos que fizeram o transplante quando o serviço ainda estava se iniciando na região, em 1994. O segredo? Não se esquecer que no peito bate um órgão que necessita de atenção. Depois de deixar claro que o serviço de transplantes é altamente tecnológico e capacitado para as operações, o que, portanto, afasta qualquer relação dos óbitos com o processo cirúrgico, o médico ainda deixa recomendações para quem acabou de transplantar.

 

 

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