Projeto de contação de histórias faz crianças retomarem gosto pela leitura

Texto, fotos, áudio e vídeos: Lucas Ribeiro

 

 

A voz que dá vida à rima é de Geverson Carlos Brás Vicente, 33, auxiliar de serviços gerais na Escola Municipal Alvorada, em Cambé. Por conta de suas poesias improvisadas humildemente, ele é conhecido pelos alunos e funcionários como Tio Carlos Poeta.

 

(foto) Tio Carlos Poeta

Tio Carlos Poeta (Geverson) é funcionário na Escola Alvorada há cinco anos

 

O que não falta para Carlos Poeta é a criatividade de fazer algo simples se transformar em uma rima que emociona e alegra as pessoas. O auxiliar de serviços gerais trabalha na escola há cinco anos, mas a poesia já faz parte de sua vida antes mesmo de trabalhar ali. “Sempre gostei muito de ler, principalmente poesia. Quando trabalhava vendendo salgado, sempre fazia as rimas para conquistar a clientela. E assim ia me divertindo e divertindo as pessoas”, afirmou.

Antes da aula, ou durante o intervalo, algumas crianças da escola vão até o Tio Carlos Poeta para pedir um versinho. De acordo com a diretora da instituição, Sandra Gouveia, 52, a presença de Carlos Poeta não só anima as crianças, como também as incentivam a escrever e a ler poesias.

Além do incentivo de Tio Carlos Poeta no mundo da literatura, a escola também achou um outro jeitinho de instigar a paixão pela leitura nas crianças. Todas as sextas-feiras, os primeiros 30 minutos das aulas de cada turno são dedicados à contação de histórias.

Antes da contação de histórias, as crianças se divertem com os brinquedos que ficam espalhados em volta do pátio da escola. Cordas, jogos de tabuleiros e tiro ao alvo decoram alguns pontos do pátio. O corre para lá e o corre para cá são certos. Mas alguns minutos depois as professoras convidam as crianças a se juntarem próximas ao “palco”, apenas um espaço delimitado por cones. É HORA DO CONTO!

 

(foto) Hora do Conto

Alunos reunidos no pátio da escola durante a contação

 

O projeto Hora do Conto existe na Escola Alvorada desde o início do ano letivo de 2018 e veio para aumentar o gosto das crianças pela leitura. De acordo com a diretora da escola, os professores não só perceberam uma resistência dos alunos pela leitura, como constataram isso no resultado da Prova Brasil do ano de 2017. Além da Escola Alvorada, outras instituições municipais de Cambé têm projetos similares que estimulam a leitura das crianças.

Sandra afirmou que houve uma pequena queda na média de proficiência na prova de língua portuguesa e acredita que isso está ligado à resistência dos alunos à leitura. Os dados da Prova Brasil de 2017 ainda não constam na plataforma do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), mas a Semed (Secretaria Municipal de Educação de Cambé) informou que a média da escola caiu para 251,94.

Conforme os dados do Inep, a Escola Alvorada, em língua portuguesa, apresentava um crescimento na média de proficiência desde 2005. No último resultado divulgado pela plataforma da Prova Brasil, referente a 2015, a média foi de 254,3. A avaliação é aplicada nas escolas a cada dois anos e serve para monitorar o desenvolvimento da educação básica no país.

A diretora reconheceu que não é uma queda tão significativa, mas que demonstra alguma dificuldade na compreensão de textos pelas crianças. “Não nos desesperamos com o resultado, mas buscamos achar uma maneira de reverter a situação de uma forma que não sobrecarregasse as crianças. Mas era necessário que fizéssemos algo, porque senão isso poderia se tornar muito pior futuramente”, pontuou Sandra.

De acordo com um editorial da Folha de Londrina, publicado no dia 9 de julho 2018, intitulado “Alfabetização é desafio nacional”, pesquisas mostram que, no Brasil, 54,73% dos estudantes acima de oito anos estão em níveis insuficientes de leitura e 33,95% não atingiram os níveis esperados de escrita. O artigo ainda traz outro dado: 60% dos alunos do quinto ano do ensino fundamental (entre nove e dez anos) não aprenderam o adequado em português e matemática.

Para incentivar mais ainda a participação dos alunos, o Hora do Conto, além de ser realizado por professores e funcionários que contam as histórias, permite que as próprias crianças façam a contação, muitas das vezes caracterizadas como os personagens dos livros. “Isso ajuda a trabalhar o imaginário das crianças em criar a cena do que estão lendo e contando”, afirmou Maristela Mazzio, funcionária da escola que colabora no projeto.

 

 

Sacola de Leitura

Além da Hora do Conto, as crianças são motivadas a ler por meio da Sacola de Leitura. A iniciativa permite que os alunos peguem, semanalmente, um livro e levem para a casa para fazer a leitura em família. “É importante que os pais também participem desse processo de educação dos filhos e reservem um tempo para entretê-los com a leitura”, disse Josiane Barusso, professora da escola.

As bolsas que são utilizadas na Sacola de Leitura foram customizadas pelos próprios alunos junto às famílias, cada uma à sua maneira e criatividade, muitas delas inspiradas em livros lidos pelas crianças.

 

(foto) Sacola de Leitura

Bolsas da Sacola de Leitura foram customizadas pelos próprios alunos

 

Da escola para a comunidade

Se na escola as crianças passaram a se sentir motivadas à leitura, por que não abrir o projeto para a comunidade? E foi isso que a professora Josiane Barusso, 48, da Escola Alvorada, fez. Em parceria com a Secretaria de Cultura de Cambé e com a UEL (Universidade Estadual de Londrina), ela criou o projeto Era Uma Vez, com o mesmo objetivo: incentivar as crianças a tomar gosto pela leitura.

Josiane contou que o projeto já tinha sido realizado uma vez, há três anos, mas teve de ser interrompido. “Nunca gostei de envolvimento com políticos e, à época, durante a contação de histórias, começou a chegar político para tirar foto e se promover pelo projeto, e não era esse o intuito. Então resolvi dar uma pausa”, disse a professora.

O Era Uma Vez é realizado quinzenalmente aos sábados na biblioteca da praça CEU, no Jardim Alvorada, em Cambé. De acordo com a professora, ainda há pouca procura e participação por parte da comunidade, mas aos poucos o projeto vai crescer. “O intuito não é quantidade, mas qualidade e conscientizar os pais e, também, as crianças de que a leitura não é algo específico da escola, mas, sim, da vida do ser humano”, pontuou Josiane.

“Muitas crianças que vêm, acompanhadas dos pais, participar do projeto são da escola [Alvorada], porque a instituição faz parte do bairro, mas além delas a gente sai ‘pescando’ as crianças que estão na quadra, no parquinho [da praça CEU]”, completou a professora.

 

 

Serviço

O projeto Era Uma Vez é realizado aos sábados, a cada 15 dias, na praça CEU (rua Genésio Geraldo dos Santos, 451 – Jardim Alvorada), às 16 horas.

 

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