Ansiedade: conheça as causas, os sintomas e as formas de controlá-la

Texto e áudio: César H.S. Rezende

 

Palpitação, falta de ar, insônia, dores no corpo e um permanente estado de alerta. Esses são alguns dos sintomas que uma pessoa diagnosticada com transtorno de ansiedade pode sentir e, embora se apresentem de maneira similar entre as pessoas, podem ser vivenciados de diferentes formas.

É o caso da assistente-administrativa Mayara Gonçalves, 26, que viu sua vida virar do avesso após ser diagnosticada com a patologia. Ela conta que começou a ter medo de andar sozinha e que vivia situações extremas. “Tinha medo de sair por receio de ter pensamentos ruins e chorar no meio da rua. Além disso, chegava a ficar quatro noites sem dormir e do nada meu corpo desligava e eu dormia por dez horas seguidas, era uma briga com meu psicológico.” Situação semelhante viveu a estudante de mestrado Bianca Schmidt, 22. Segundo ela, a mudança de cidade e a pressão na vida acadêmica desencadearam um quadro de ansiedade e depressão que a deixou doente. “Eu percebi que tinha algo errado quando fugia das responsabilidades e só queria ficar dentro do quarto e, de preferência, sem falar com ninguém. Era como se houvesse monstros dentro da minha cabeça.”

 

 

Mayara e Bianca fazem parte da estatística da OMS (Organização Mundial de Saúde) que aponta 9,3% dos brasileiros apresentam os sintomas de ansiedade. Para o psiquiatra Edmo Bordin, a ansiedade é algo natural do ser humano, entretanto, ele destaca que o cotidiano tem colaborado para o aumento dos transtornos. Segundo ele, “nosso cotidiano pode estimular um estilo de vida no qual a pressão, a urgência e os prazos se tornem o contexto no qual os indivíduos estão inseridos e, a longo prazo, pode levar a sentimentos de desgaste, insatisfação e frustração e, posteriormente, ao desenvolvimento de algum transtorno”.

Ele ainda acrescenta que “a ansiedade não é uma vilã, é um sentimento que nos deixa em alerta para possíveis perigos, também nos ajuda a ficar atentos e, de certa forma, nos ajuda a ficar acordados para fazermos algo da melhor forma que pudermos”. O psiquiatra ressalta que os sintomas não devem ser confundidos com estresse ou nervosismo. “Entre os sintomas físicos, os mais comuns são as dores e apertos no peito, tontura e falta de ar, além de dores na região abdominal e sudorese excessiva; enquanto os sintomas psicológicos englobam a dificuldade de concentração e foco, preocupação e nervosismo constantes.”

 

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A ansiedade nos violenta, nos cala e nos deixa inertes (Crédito: Marcela Espinoza)

 

O psicólogo Filipe Martin afirma que a cobrança pela produtividade é o fator que mais tem contribuído para o aumento da ansiedade. Segundo ele, “a sociedade exige cada vez mais os resultados do nosso trabalho e estudo. Hoje não basta você ter somente um diploma, afinal, o mercado [de trabalho] exige que você tenha mestrado, cursos de pós-graduação, experiências anteriores e outros. É cada vez mais penoso conseguir uma vaga digna e que remunere bem. Além disso, não são poucos os casos nos quais muitas vezes são precisas duas e/ou três jornadas de trabalho [e, no caso da mulher, geralmente tem a jornada do trabalho em casa]”. Há ainda situações nas quais os indivíduos fazem uso de drogas para aumentar o nível de produção, como fenilfenidato e derivados, acrescenta o profissional.

Já o sociólogo Marco Rossi destaca que o aumento dos transtornos de ansiedade está atrelado a questões de instabilidade e incerteza. “Não saber se haverá emprego e renda no futuro próximo é angustiante. Além disso, o roubo do tempo pelo trabalho impede que as pessoas cultivem o mundo das ideias e dos afetos. A ansiedade é por medo de perder o que tem e pela angústia de não poder ter uma vida melhor.”

 

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Os monstros que a ansiedade desperta, são os mais difíceis de controlar em nossa mente (Crédito: Felipe Cestari)

 

Situações

Ir a um churrasco costuma ser algo prazeroso, mas não era o que acontecia no caso de Mayara. Ela conta que teve um surto de ansiedade tão forte que chegou a parar no hospital.  “Por fora estava tudo bem, mas dentro da minha cabeça eu pensava nas coisas que teria para resolver no dia seguinte. De repente, eu comecei a tremer, minha garganta fechou e eu não suportava as pessoas falando ao mesmo tempo. Pensava comigo, não vai dar, eu só pedia ‘fiquem quietas, por favor!’. E do nada, comecei a chorar e a tremer e a falta de ar começou e lá vamos nós de novo para o hospital.”

Já no caso de Bianca a situação mais extrema foi em sala de aula durante uma das disciplinas mais difíceis, segundo ela, do mestrado. “A sala toda estava em debate sobre um determinado tema e, nessa aula em específico, o professor nos forçava a falar. Teve um momento no qual eu percebi que era a única que não havia falado. Comecei a chorar do nada, sentia como se minha respiração estivesse abafada e então eu saí correndo da sala, fui tomar um ar para ver se voltava ao normal. Depois de quase uma hora, eu me estabilizei e continuei no debate.”

Tratamento

Filipe alerta que a ansiedade não é uma característica que a pessoa tem a todo o momento, por isso não é saudável tratá-la como se fosse uma qualidade do indivíduo. É um sentimento que vai e vem de acordo com a situação que estivermos em contato. Porém, quando alguns dos sintomas acima estiverem exagerados e se a pessoa começar a sentir que a ansiedade está afetando muito a sua vida diária, deve procurar ajuda psicológica e, em alguns casos, psiquiátrica, pontua o psicólogo. “O processo psicoterápico vai investigar o máximo dos fatores que influenciam na ansiedade e vai propiciar o autoconhecimento do paciente, para que ele próprio possa modificar a forma que se comporta nas situações que ele se sente ansioso.” Além disso, de acordo com ele, a ansiedade não tratada pode desencadear transtornos como o TAG (Transtorno de Ansiedade Generalizada), transtorno do pânico, TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo), Tept (Transtorno de Estresse Pós-Traumático) e fobias específicas.

Nesse sentido, ele ressalta que, “a medicação em alguns casos extremos é necessária, porém, ela só vai retirar os sintomas maiores da ansiedade e não vai atuar nas causas. Por isso, é extremamente necessário que a pessoa procure um psicólogo para entender o que está acontecendo”. Edmo também defende a terapia: “Esse modelo de atendimento favorece o indivíduo na compreensão da origem das questões que envolvem os seus sintomas e manifestações, além do ganho de autoconhecimento, adquirido ao longo do processo terapêutico e que favorece e beneficia os demais campos da vida”.

 

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Os medicamentos que Mayara toma para o controle da ansiedade (Crédito: César H.S. Rezende)

 

Vida que segue

O tratamento psicológico junto à medicação tem auxiliado no controle do transtorno de Mayara. “Faço tratamento com medicação e frequento o psicólogo duas vezes na semana. Tenho levado a vida na normalidade, mas estou lutando e caminhando para amenizar cada dia mais isso. Se estou em período de muitas atividades ou grande estresse, sinto que a ansiedade pode surgir e daí eu começo a fazer atividades físicas e também procuro sempre fazer coisas que me dão prazer, como ficar com a minha cachorra, com a minha família e os meus amigos.”

No caso de Bianca, o tratamento tem auxiliado a levar o mestrado de forma mais leve. “Eu vou ao psiquiatra uma vez ao mês, tomo um remédio antes de dormir. Além disso, aprendi a extravasar um pouco, seja na corrida ao final de um dia cansativo ou em saídas com meus amigos. A gente tem que entender que nem tudo pode ser controlado e compreender isso é essencial na vida de uma pessoa com esse transtorno.”

 

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