Londrina é ponto de encontro para busólogos, os apaixonados por ônibus

Texto e fotos: João Renato Silva

 

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Neste ano, o Enbus (Encontro Nacional de Busólogos) chegou à quarta edição

 

Uma vez por ano, durante um dia, diversas pessoas ostentando câmeras fotográficas circulam pela praça Rocha Pombo, em Londrina, a 400 quilômetros de Curitiba. Pode parecer uma aglomeração de jornalistas cobrindo uma pauta importantíssima, ou até um encontro de fotógrafos da região. O evento, de fato, é importante, mas o motivo da reunião não é nenhum desses. “A câmera é uma ferramenta fundamental para fotografar os ônibus nas rodovias”, explica Douglas da Silva, 27. A praça fica ao lado do terminal rodoviário central da cidade, um ponto privilegiado para observar o fluxo de entrada e saída de ônibus.

Londrina recebe o Enbus (Encontro Nacional de Busólogos) há quatro anos. O evento ocorre no Museu de Arte da cidade, que, em conjunto com a praça adjacente, se converte em um parque de exposições para ônibus antigos e novos. Morador de Cascavel, também no Paraná, Douglas viajou mais de cinco horas – de ônibus – para participar do encontro de busólogos, as pessoas que têm como hobby a admiração por esses veículos.

A atração de Douglas pelo assunto existe desde a infância, mas há cerca de dois anos o interesse se tornou mais profundo. “Dos ônibus que passam por mim, sobre mais de 90% deles eu já consigo dizer tudo. Sobre o chassi, que tipo de serviço o ônibus oferece, se tem uma motorização potente, o tipo de câmbio que ele usa”, detalha, observando de longe os veículos estacionados ao redor da praça e do museu.

“O local não poderia ser melhor. É um espaço que resgata a memória do transporte de passageiros”, opina Maurício Sales, 43, morador de Campo Mourão, a 50 quilômetros de Londrina. Isto porque, de 1952 a 1988, antes de se tornar museu, o espaço também funcionou como estação rodoviária. Na infância, Maurício passava horas observando o movimento dos ônibus em uma garagem próxima à casa da avó. “Naquele sonho de criança, eu me imaginava vestido como os motoristas. Já tinha na minha cabeça: um dia eu quero ser motorista de ônibus”, relembra. Mas o sonho não se realizou. Ele acabou herdando a profissão do pai e, hoje, é microempresário no ramo de vidro e alumínio. “O destino tentou me afastar do transporte, mas o coração não deixava. Foi aí que nasceu a paixão de ser busólogo, entender o que é um ônibus na sua essência, e não só no olhar.”

 

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O Enbus ocorre  no Museu de Arte de Londrina

 

A busologia, para ele, é uma imersão tão profunda no universo dos ônibus a ponto de conhecer, sobre cada veículo, dados como a data de aquisição pela empresa a que ele pertence, por quanto tempo e em quais linhas atuou, se o ônibus já foi vendido, se sua numeração mudou, se o veículo já se envolveu em acidentes e, em caso positivo, saber até se houve mortes. “O que nos completa é buscar esse tipo de informação. Entender de todas as formas a história do ônibus”, explica.

A maioria dos busólogos parece se interessar pela área desde a infância, mas algumas histórias fogem desse padrão. Para Luciana Santos, 39, de Guarulhos (SP), a paixão surgiu em uma espécie de “insight”. “Foi em 2006. Em uma noite, vi o ônibus subindo a rua da minha casa, com o letreiro da empresa todo iluminado. Foi amor à primeira vista”, conta. Desde então, a dona de casa fotografa todos os ônibus que encontra. Ela mesma já achou que a busologia era “coisa de doido”, e teve que superar o próprio preconceito para se aventurar na área. “Algumas mulheres gostam [da busologia], mas não entram no hobby por medo de discriminação. Tem que passar por cima disso. Já fui chamada de doida, mas estou sempre aí, fazendo o que eu gosto”, incentiva.

Aos 30 anos de idade, o londrinense David Franco já pode dizer que realizou o grande sonho de sua vida: tornou-se motorista de ônibus. Desde os 15, ele já lavou os carros, foi guia, vendeu passagem em rodoviária, trabalhou em garagens, tudo para ficar perto do amado veículo. “Respeite o busólogo. Ele é uma prestação de serviço anônima”, pede, argumentando que a iniciativa de tomar providências parte sempre de um busólogo quando alguma melhoria precisa ser reivindicada para os passageiros.

Alguns não são tão anônimos assim. É o caso de Henrique Estrada, 39, que a todo momento é parado para receber os cumprimentos de admiradores e ouvintes de vários lugares. Há quatro anos, ele mantém uma rádio online voltada para a busologia, fazendo entrevistas com fabricantes, motoristas e passageiros. “É uma rádio que toca música e toca ônibus”, resume. O conteúdo também alimenta um canal no YouTube, com mais de 30 mil inscritos.

O gosto de Henrique pelo mundo dos ônibus acabou tomando conta de Cilene Lachi, 49, casada com ele há dez anos. “Ele foi me levando nos eventos e a paixão foi surgindo. Hoje em dia eu já sei o que olhar em um ônibus, o que interessa, a diferença entre as empresas”, conta, dizendo que sempre acompanha o marido nas folgas do trabalho como diretora de uma escola.

“Eu saí da maternidade e fui de ônibus para casa. Começou aí e não parou mais”, explica Henrique sobre origem de sua admiração pelos ônibus. Ele já era locutor de rádio e, agora, graças ao apoio de patrocinadores, conseguiu transformar a produção de conteúdo para a Rádio Ônibus em profissão. Até agora, não tem motivos para pensar em parar: a emissora já tem uma filial em Buenos Aires (Argentina), e a paixão pelos veículos só cresce. “O ônibus para mim é um acontecimento. Andar de ônibus é um acontecimento.”

 

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