Autismo levanta debate sobre tratamento, diagnóstico e inclusão

Texto, fotos e áudio: Mariana Sanches

 

Aos dois anos de idade, Matheus Queiróz Waltmann foi convidado a se retirar da sua primeira escola. A justificativa foi que ele “não se encaixava nos padrões de aluno daquela instituição”. Nas primeiras duas semanas de aula, sua mãe, Vanilsa Lane Queiróz Waltmann, recebia ligações diárias pedindo para que ela fosse buscar o filho. Ao final dessas semanas, a própria escola diagnosticou Matheus com déficit de atenção e hiperatividade e pediu para que os pais procurassem uma profissional indicada pela instituição.

Assim, Vanilsa e Celso Waltmann, pais de Matheus, começaram a procurar médicos que confirmassem o diagnóstico do filho. Para a surpresa deles, o garoto não tinha déficit de atenção nem hiperatividade, mas sim TEA (Transtorno do Espectro Autista). Daquele momento em diante a vida da família Queiróz Waltmann mudou completamente.

Entendendo o TEA

O TEA abarca diferentes síndromes marcadas por perturbações do desenvolvimento neurológico com três características fundamentais, que podem se manifestar em conjunto ou isoladamente. São elas: dificuldade de comunicação por deficiência no domínio da linguagem e no uso da imaginação para lidar com jogos simbólicos, dificuldade de socialização e padrão de comportamento restritivo e repetitivo.

Há dez anos, o autismo atingia uma a cada mil crianças e era considerado uma condição rara. Hoje, as pesquisas mostram que uma a cada 60 crianças é portadora do espectro, algo que é mais comum em meninos do que em meninas. De modo geral, o TEA se instala e se manifesta nos três primeiros anos de vida, quando os neurônios que coordenam a comunicação e os relacionamentos sociais deixam de formar as conexões necessárias.

Jaqueline Albieri Vieira de Mattos é formada em medicina pela UEL (Universidade Estadual de Londrina) e atualmente é psiquiatra em Londrina. Ela está se especializando em crianças com TEA. A linha de pesquisa de Jaqueline estuda as causas que podem levar uma pessoa a ter o transtorno do autismo.

Além de fatores genéticos, estudos mais recentes admitem outras causas para o TEA, como fatores biológicos e ambientais. Baseada nos princípios da epigenética (*), Jaqueline busca tratar seus pacientes com base em uma alimentação específica para cada caso. De acordo com ela, o metabolismo tem uma grande influência na parte cerebral. “O intestino é o órgão que mais trabalha com a questão metabólica, toda a absorção de nutrientes vai passar por ele. Então, se não há um trabalho feito de forma adequada nessa parte, o metabolismo se altera, os hormônios se alteram, tudo se altera e inclusive o funcionamento cerebral. Você acaba tendo mais quadros psiquiátricos, como depressão e ansiedade. Além disso, as crianças estão tendo mais alteração de comportamento, fala e tudo relacionado a isso. E é isso que eu tento estudar e trabalhar”, ela explica.

 

JAQUELINE DE MATTOS

Jaqueline de Mattos, psiquiatra especialista em crianças com TEA

 

O tratamento que Jaqueline aplica em seus pacientes é o de tentar corrigir essas alterações epigenéticas com base na alimentação. “Primeiro, através de exames, eu busco entender cada caso, pois cada criança é um caso diferente, com um perfil diferente. O exame mostra o que está mais alterado nessa criança. Então, baseado nisso, o tratamento se propõe a ajudar esse corpinho a botar para fora essas toxinas para não ficar gerando mais inflamação cerebral e deixando ela mais autista.”

Tratamentos e cuidados especiais

Matheus tem uma dieta regulada há dois anos e meio. No começo foi complicado, como explica a mãe, mas com o tempo ele foi se acostumando e hoje segue rigorosamente a alimentação especial. Além do tratamento alimentar, o garoto (hoje com sete anos) também vai ao psicólogo duas vezes na semana, faz terapia ocupacional, acompanhamento com uma fonoaudióloga e ainda frequenta a sala de recursos da escola.

 

MATHEUS 1

Matheus Waltmann brincando com seus carrinhos

 

Atualmente, Matheus está matriculado em uma escola municipal de Londrina e tem uma professora de apoio que o acompanha o tempo todo nas aulas. A profissional é oferecida pela própria instituição e ajuda o garoto na interação social e nas tarefas que são passadas. Segundo Vanilsa, a adaptação foi rápida e ele logo se acostumou com a rotina. Os professores e colegas também foram acolhedores, sempre o incentivam a fazer as atividades e a brincar com as outras crianças.

Situação diferente das outras escolas pelas quais Matheus passou. Gabriela Queiroz, irmã mais velha do menino, afirma que a família já teve experiências muito ruins em outras instituições de ensino. “Basicamente ele fazia o que queria nas outras escolas. Eles não respeitavam a adaptação que ele precisava. A professora de apoio deixava ele fazer o que queria. Ele saia da sala, fazia coisas que não tinham nada a ver com o que era passado na aula”, ela relembra.

A dificuldade no ensino e até mesmo a falta de conhecimento são destacados pelo psicólogo Victor Rodrigo Tardem Delefrati, que é um dos donos de uma clínica especializada no tratamento de crianças com TEA em Londrina. A clínica atende a cerca de 80 crianças. Tardem trabalha com a linha de terapia ABA, que se baseia em um tripé: a análise aplicada, a análise experimental e a filosofia da ciência ou análise biográfica. “Juntamos tudo que é feito na análise experimental e depois temos a aplicação, que é a nossa parte. O nosso foco é em comportamentos que são socialmente relevantes e que vão ajudar a melhorar a vida da pessoa.”

 

VICTOR TARDEM

Victor Tardem e seu sócio também psicólogo Felipe Tardem

 

Na clínica, a equipe de Tardem procura desenvolver comportamentos socialmente significativos para a criança. Em um primeiro momento, é feita uma avaliação de quais são os principais déficits e os excessos comportamentais de cada cliente. Assim, é possível trabalhar com esses pontos específicos. O objetivo do tratamento, segundo Tardem, é buscar a felicidade e a autonomia da criança. O psicólogo também ressalta que o TEA é divido em diferentes graus. “Quando a gente fala de autismo a gente fala de graus de autismo. A autonomia, por exemplo, para algumas crianças pode ser conseguir se mexer sozinha, diminuir comportamentos autolesivos ou até mesmo entrar em uma faculdade, conseguir um emprego.”

Pequenos grandes passos

A autonomia da criança autista é o principal foco de trabalho da terapeuta ocupacional Thais Helena Honório Garcia. Especializada no modelo Denver (**), Thais atende Matheus e outras crianças com TEA. Segundo ela, a terapia ocupacional para crianças autistas se baseia em uma tríade: a família, a escola e a terapia. “Família e escola precisam estar unidas, já que no ambiente escolar a criança precisa muito que essas intervenções que fazemos na terapia sejam aplicadas”, ela reforça.

Thais também enfatiza a importância de a escola abrir as portas para um acompanhante terapêutico, que é um profissional que irá acompanhar a criança nas atividades escolares.  “Mas o acompanhante não pode tirar o papel principal do professor, que é de comando, de domínio da voz ativa. A criança com transtorno do espectro autista tem que entender que tem uma professora regente e o acompanhante terapêutico. Ela precisa entender essas diferenciações.”

 

THAIS GARCIA

Thais Garcia em seu consultório

 

Sobre a inserção de um aluno com TEA no ambiente escolar, Thais acredita que a turma que recebe a criança só tem a ganhar. “É uma sala que aprende princípios de vida. São crianças muito mais humanas, mais refletidas. Elas vão lidar com dificuldade e aprender a estender a mão quando precisar. Adoro a inclusão desde que seja feita da forma correta”, ressalta.

Além das dificuldades já enfrentadas em outras escolas, a família de Matheus também teve que aprender a lidar com o preconceito, muitas vezes vindo da falta de informação sobre crianças com TEA. Celso Waltmann relembra um episódio que, segundo ele, foi o mais marcante. “Estávamos em uma loja de celular e o Matheus estava agitado, andando de lá para cá. Aí uma senhora olhou para a minha esposa e falou ‘você não dá educação para esse moleque? Esse moleque não tem mãe?’” A gente teve que ser muito educado, porque era uma pessoa de idade, mas totalmente preconceituosa e achando que era falta de educação. São situações que nos deixam tristes, mas a gente sempre tenta fazer o que é melhor para ele.”

Apesar dos problemas e preconceitos enfrentados, o pai, a mãe e a irmã de Matheus veem nas pequenas conquistas do dia a dia mais um obstáculo superado. Eles relatam algumas das diversas experiências boas e marcantes que já tiveram com o menino.

 

 

matheus 2

Matheus pesquisando vídeos no computador de casa

 

MATHEUS QUADRO 1

Quadro de uma cesta de frutas feito por Matheus decora o seu quarto

 

MATHEUS QUADROS 2

Quadros de um cachorro com uma cereja e de uma galinha, respectivamente, feitos por Matheus decoram o seu quarto

 

(*) “A epigenética é definida como modificações do genoma que são herdadas pelas próximas gerações, mas que não alteram a sequência do DNA. Por muitos anos, considerou-se que os genes eram os únicos responsáveis por passar as características biológicas de uma geração à outra. Entretanto, esse conceito tem mudado e hoje os cientistas sabem que variações não-genéticas (ou epigenéticas) adquiridas durante a vida de um organismo podem frequentemente serem passadas aos seus descendentes. A herança epigenética depende de pequenas mudanças químicas no DNA e em proteínas que envolvem o DNA. Existem evidências científicas mostrando que hábitos da vida e o ambiente social em que uma pessoa está inserida podem modificar o funcionamento de seus genes.” (Informações Revista Carbono)

(**) “Este método distingue-se pelo uso de estratégias de ensino. O objetivo é que as crianças aprendam através de jogos, sem deixar de lado os princípios da ciência da análise aplicada ao comportamento. O Modelo de Denver utiliza as sequências de desenvolvimento infantil como base para a avaliação da criança. Depois da avaliação e diagnóstico são definidos os objetivos de intervenção nas diferentes áreas de desenvolvimento. Estas incluem as competências sociais, comunicação receptiva e expressiva, desenvolvimento cognitivo e habilidades motoras. No método de Denver o objetivo é que a criança e o terapeuta criem uma relação enquanto parceiros nas atividades. A interação social é a principal finalidade dos jogos criados. Todas as atividades do Modelo de Denver são criadas para promover a interação social positivas.” (Informações Clínica de Saúde Integral)

 

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