Mercado de produtos eróticos ganha espaço no Brasil

Texto e áudios: Isabella Cavalheiro

 

Temas relacionados à sexualidade ainda são cercados de tabus, mas recentemente essa realidade parece estar mudando. Por muito tempo, a busca por prazer foi sinônimo de vergonha e receio, mas o comportamento dos brasileiros mudou e é mais frequente o consumo de produtos que ajudam a melhorar a vida sexual das pessoas, seja no relacionamento que não anda bem ou até mesmo para uso individual.

Daniela, como prefere se identificar, consome produtos eróticos há quatro anos e conta como foi a descoberta: “Eu senti que a minha vida sexual andava parada e achava que era indisposição. Aí comecei a tomar vitaminas, mas não adiantou. Um dia, numa brincadeira com amigas, resolvemos conhecer um sex shop e foi ali que tive o primeiro contato com cosméticos e vibradores. Fui testando até ver qual eu gostava mais, até que funcionou”. Ela acrescenta que foi uma descoberta muito positiva em sua vida: “Pude perceber que não era indisposição e sim falta de criatividade. Até hoje uso cosméticos que me ajudam a não cair na mesmice na hora do sexo”.

De acordo com os dados da Abeme (Associação Brasileira das Empresas do Mercado Erótico e Sensual), fornecidos por lojas que comercializam esses produtos, a preferência dos consumidores varia entre os gêneros. Homens e mulheres têm diferentes prioridades na hora de escolher o que usar. Apesar disso, as médias que os consumidores gastam são semelhantes entre os gêneros, de R$ 80 a R$ 280.

Os homens brasileiros se preocupam muito com o tamanho do pênis, pois, dos cinco produtos mais vendidos, quatro são ligados diretamente ao tamanho do pênis, à potência ou à manutenção da ereção.

 

Os cinco produtos eróticos mais consumidos pelos homens

1º) Lubrificante anal

2º) Gel excitante masculino

3º) Gel retardador de ejaculação

4º) Anel peniano

5º) Bebidas energéticas ou afrodisíacas e bomba peniana

 

Já as mulheres têm preferências mais variadas na hora de comprar. O primeiro lugar do ranking dos mais vendidos é dos excitantes femininos que prometem estimular mais a libido e também trazer mais disposição durante as práticas sexuais.

 

Os cinco produtos eróticos mais consumidos pelas mulheres

1º) Excitante feminino

2º) Lubrificante íntimo que esquenta

3º) Gel para sexo oral

4º) Lingerie sexy

5º) Vibradores em geral

 

Mercado que movimenta a economia

Também de acordo com a Abeme, a internet lidera nas formas de comercialização, com 52% das vendas dos produtos. Já as consultorias domiciliares respondem por 21%. Isso evidencia que o consumidor de produtos eróticos preza por discrição e por personalização na hora da compra, desmistificando a ideia de que produtos eróticos estão na maioria em lojas físicas de sex shops.

Atualmente o setor é responsável pela geração de mais de 125 mil empregos diretos e indiretos no país. Do total, as mulheres são maioria, pois ocupam cerca de 80% das vagas. As minorias sexuais (transexuais e travestis, por exemplo) também acabam encontrando muitas oportunidades, pois há menos preconceito nesse ramo.

Marcos Cruz, farmacêutico e dono da marca Kalya Cosméticos, de Londrina, entrou nesse nicho mercadológico por acaso e viu possibilidade de ascensão. “Hoje o mercado de produtos eróticos no Brasil movimenta cerca de R$ 1 bilhão por ano e já é um número muito expressivo. Mas há 20 anos, quando decidi entrar para o ramo, eu trabalhava somente com hipóteses. Pensava que em mais alguns anos temas relacionados com sexualidade seriam mais recorrentes. Eu até acertei, mas acredito que ainda hoje existem muitos tabus”, afirma.

A possibilidade de aproximar as pessoas e de aprimorar o contato humano são lemas que motivam o empresário a se manter no ramo. “A gente considera que os cosméticos sensuais têm o objetivo de melhorar e estimular o contato entre as pessoas. E o sexo seria uma consequência disso. Quando você cria produtos que estimulam o lado sensorial, você está contribuindo para que a felicidade dos consumidores aumente”, comenta o empresário.

Às vezes, ir a um sex shop pode ser sinônimo de empolgação e de descoberta de novas possibilidades, mas nem sempre produtos eróticos são a solução para todos os problemas. “Se a informação de uso não é passada de forma correta, a marca perde credibilidade. Isso nos prejudica bastante, pois é um mercado que tem de se reciclar. A forma de vender pode ser crucial na hora de fidelizar clientes, porque eles podem ou não ter a consciência correta da função do produto, porque não existe milagre, vale lembrar.”

 

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Da esquerda para a direita: Adriana, Luiz e Marcos Cruz, principal equipe de fabricação da Kalya Cosméticos (Crédito: Isabella Cavalheiro)

 

Daniele Gois é vendedora de cosméticos sensuais e fala o que desperta o interesse dos clientes pelos cosméticos que vende: “Quando alguém procura por cosméticos sensuais, quer inovar, sair da mesmice no relacionamento ou até mesmo sozinho”.

Diferentes motivos levam as pessoas a entrarem no ramo de produtos eróticos. Foi o caso de Taís Lima, proprietária de uma loja de sex shop em Dourados, no Mato Grosso do Sul. Com uma mistura de acaso e uma experiência pessoal extremamente traumática, há sete anos ela desenvolve um trabalho de consultoria de produtos eróticos.

 

 

Recentemente a empresária começou a fazer vídeos para o YouTube com dicas de produtos e assuntos relacionados à sexualidade, pois acredita ser uma forma de quebrar os tabus da sexualidade. “Os vídeos vêm como uma forma de desmistificar essa visão negativa de produtos de sex shop e de poder ajudar de certa forma as pessoas que têm algum problema relacionado à sexualidade. Afinal todo mundo merece ter uma vida sexual de qualidade”, explica.

A falta de conhecimento sobre o próprio corpo e as sucessivas experiências nos atendimentos com suas clientes fizeram com que ela criasse uma campanha de empoderamento feminino. “Muitas pessoas, em especial mulheres, entram num sex shop e às vezes deixam de aproveitar a consultoria, tirar dúvidas, porque sentem-se envergonhadas de falar sobre o assunto. A partir disso, eu tento orientar as clientes a se encorajarem a perder medo e vergonha para aproveitarem os benefícios que um produto erótico pode trazer.”

A empresária acredita que o mercado de produtos eróticos começou a ganhar mais destaque, pois recentemente assuntos relacionados com sexualidade vêm ganhando espaço. Ela também relata a paixão que tem por seu trabalho e o que ele pode proporcionar às pessoas.

 

 

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Taís Lima, empresária e youtuber (Crédito: Reprodução/Instagram)

 

Apesar das diferenças e do preconceito, há 30 anos o mercado de produtos eróticos movimenta a economia e ganha espaço na vida das pessoas que buscam por melhores experiências sexuais. Na tentativa de quebrar tabus e separar a pornografia da sensualidade, a mensagem desse segmento é clara: produtos eróticos podem ser grandes aliados para melhorar a vida sexual de todas as pessoas.

 

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