Escolas “cristãs”: educação e religião se misturam?

Texto, foto e áudios: Bruno Nomura

 

Foi dada a largada para as matrículas em diversos colégios de Londrina. Neste país em que, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 86,8% da população se declara cristã, uma das formas de ganhar a simpatia dos pais é vender uma suposta “educação cristã”.

A estudante de design gráfico Milena Gomes, de 21 anos, estudou durante sete anos em um colégio de uma grande rede de tradição protestante. Os pais judeus queriam uma escola que tivesse uma crença parecida com a deles. Milena, contudo, não acreditava na religião imposta pelo colégio. Ao longo do ensino médio, esse descompasso gerou problemas para a estudante, que se recusava a participar da aula de ensino religioso. “Daí já me retirava da sala e, se o professor reclamasse, eu falava ‘você não pode me obrigar, sei que essa matéria não vai para o histórico escolar’. Era sempre uma novela, o professor mandava ir falar com o coordenador”, relembra.

Milena já sabia à época que, assim como todos os estudantes brasileiros, não era obrigada a participar da aula de ensino religioso. Todas as escolas públicas de ensino fundamental devem ofertar a disciplina, mas a participação é facultativa. Nem sempre as escolas deixam essa opção clara ao estudante. Milena se sentia coagida ainda a participar do culto semanal e dos vários momentos de oração ao longo do dia.

 

 

Ariel Trippy, 20, estudou da quinta à oitava série do ensino fundamental em outra escola tradicional em Londrina, de orientação católica, recentemente adquirida por um grande grupo educacional. O estudante de artes cênicas passou a ter problemas com a instituição quando a direção começou a questionar sua sexualidade.

 

 

Depois de ser submetido a uma espécie de “cura gay”, Ariel tentou suicídio. “Continuo tendo vários problemas psicológicos e não tenho coragem de ir a uma psicóloga por trauma, de ela olhar na minha cara e rir de mim”, critica.

 

ariel

Sobrevivente: Ariel foi submetido a sessões de “cura gay” indicadas pela direção de sua própria escola

 

Para o especialista em ensino religioso e professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL) Fabio Lanza, educação e religião podem caminhar juntas, mas a religiosidade de cada um deve ser respeitada. “Muitas pessoas acham que o tipo de conhecimento religioso e o tipo de conhecimento científico, um precisa negar o outro. Diria que são formas de saber distintas, com espaços distintos, e que precisam se respeitar”, explica.

 

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