O último haicaísta de Assaí, no norte do Paraná

Texto, foto, áudios e vídeo: Bruno Nomura

 

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Naomi Nissikawa e o Memorial da Imigração Japonesa de Assaí, inaugurado em maio deste ano

 

Naomi Nissikawa tem 83 anos. Ainda não havia completado os primeiros dez quando chegou a Assaí, nome que significa “sol nascente” em japonês. Hoje, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a localidade tem pouco mais de 16 mil habitantes. Destes, 12% são descendentes de japoneses – é a maior porcentagem do Brasil.

A família de Naomi recebeu um convite de parentes e saiu do interior de São Paulo para tentar a sorte nas desconhecidas terras do norte do Paraná. Assaí ainda engatinhava. O café e o algodão movimentavam a economia e renovavam as esperanças dos que se aventuravam pela região.

Como precisava trabalhar na lavoura, Naomi não frequentou a escola. Certa vez, ouviu de um professor que poderia aprender japonês escrevendo haicais (também conhecidos como “haikus”), já que eles exigem profundo conhecimento dos ideogramas da língua. Autodidata, começou a praticar. A escrita se tornou um hobby. Nunca mais parou.

Dos 80 haicaístas de Assaí, Naomi é o único sobrevivente. Várias de suas criações foram reconhecidas por publicações japonesas. Ele relata que não pensa muito para escrevê-las: o segredo é estar preparado com papel e caneta para os momentos em que a inspiração vem à tona.

 

 

O futuro da tradição

Richard Gonçalves André, professor do Departamento de História da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e pesquisador da cultura japonesa, afirma que existem duas características que definem o haicai.

 

 

Richard lembra de sua avó escrevendo haicais e relata que a atividade era comum entre os imigrantes japoneses que vieram ao Brasil. O professor, que é descendente de japoneses, também se arrisca na escrita dos pequenos poemas, mas com uma adaptação moderna: quando a inspiração vem, ele recorre ao celular para salvar seus haicais.

Foi incentivado pela escola que Leonardo Henrique Luiz, mestrando em história social na UEL, começou a escrever haicais em português. O interesse pela cultura japonesa fez com que ele buscasse aprender a língua da terra do sol nascente. Hoje, Leonardo, que não tem descendência japonesa, dá seus primeiros passos nos haicais em japonês. É a esperança de que a tradição preservada por Naomi continue entre as próximas gerações.

 

 

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