Estela Fuzii: a trajetória da primeira nissei nascida em Londrina

Texto, fotos, áudios e vídeo: Katia Peruzi

 

FOTO 1 - ESTELA

Estela Okabayashi Fuzii em sua sala no Núcleo de Estudos da Cultura Japonesa

 

A primeira nissei nascida em Londrina, Estela Okabayashi Fuzii, guarda na memória a sua trajetória na cidade e na UEL (Universidade Estadual de Londrina). Estela é casada com Eloy Fuzii e é mãe de quatro filhos: Stella Cristina, Myriam Teresa, Márian Elizabeth e Eloy Okabayashi Fuzii. Sua vida pessoal se entrelaça de tal maneira com a vida profissional que chega a confundir.

Uma mulher, tal como a própria mãe, que não mede esforços para ajudar as pessoas e a cidade onde vive. Tanto ajudou que foi homenageada pelo Ministério das Relações Exteriores e pela Casa Imperial do Japão, quando recebeu a condecoração Ordem do Tesouro Sagrado Raios de Ouro com Roseta, pelo trabalho desenvolvido durantes os anos de docência. “Fui receber a comenda em Tóquio, na Casa Imperial, pelo próprio imperador. Ao todo, éramos apenas 11 pessoas do mundo inteiro recebendo a homenagem. Do Brasil, eram somente duas pessoas. E eu, a única mulher.”

 

FOTO 2 - CONDECORAÇÃO

Estela com a condecoração que ganhou do imperador do Japão e uma réplica feita em arroz da homenagem

 

Estela se dedica muito à vida acadêmica. Foi uma das fundadoras do curso de pedagogia da UEL, além de precursora dos programas de intercâmbios entre universidades brasileiras e japonesas. Ela sempre se dedicou ao estudo da comunidade nikkei em Londrina. Estela foi a autora do projeto que desenvolveu e implantou o NECJ (Núcleo de Estudos da Cultura Japonesa) na UEL, em 1995. Atualmente, com 85 anos, continua como diretora do núcleo, do qual tinha se aposentado em 2004 como professora titular; e retornou, a convite, em 2006.

Os pais de Estela, Taichi e Tokiko, vieram para Londrina em busca de um lugar em que conseguissem um futuro melhor. A convite de Hikoma Udihara, gerente da Companhia de Terras Norte do Paraná, Taichi veio conhecer Londrina. “Então, meu pai comprou um terreno em Londrina e abriu uma casa de comércio, na rua Professor João Cândido. Meus pais fizeram parte da colonização de japoneses na cidade”, conta.

 

 

Estela conta que os pais sempre a incentivaram a estudar, por eles também terem sido pessoas que sempre estudaram. Taichi fez curso de arte no Japão e falava bem pouco em português. Já Tokiko estudou no Brasil e tinha boa fluência da língua portuguesa, o que era incomum para os imigrantes. “Minha mãe era uma mulher vanguarda e queria que suas filhas estudassem, ela exigia que falássemos apenas japonês dentro de casa. Meu pai sempre leu muito e me inspirou na leitura. Naquela época, ele mandava buscar livros no Japão e em São Paulo. Hoje, ainda lembro, nesta idade, que ele falava sobre literatura clássica mundial. Só depois que meu pai faleceu que comecei a pensar: puxa meu pai era culto e nunca percebi, achava que era normal isso.”

Quando estudava no colegial, Estela sempre levava um livro para ficar lendo nas horas vagas. “As minhas coleguinhas se assustavam, né?! Falavam que eu ficava só lendo. Achava tão normal ler livro, meus pais me incentivavam muito.”  Estela conta que ainda compra livros para por em sua biblioteca. “Às vezes nem dá tempo de ler tudo, mas compro. Tenho o costume de carregar os livros na bolsa também, para quando estiver esperando em algum lugar conseguir ler. Ler é uma coisa muito boa, uma riqueza muito grande.”

Como os pais da Estela sempre a incentivaram a estudar e em Londrina não tinha curso superior, ela foi estudar pedagogia em Curitiba, na UFPR (Universidade Federal do Paraná). Ela enfrentou muitos obstáculos e preconceitos por ser uma mulher, querer estudar e, principalmente, por estudar fora.

 

 

Uma semana depois que se formou em Curitiba, Estela recebeu o convite do Colégio Mãe de Deus para dar aula no curso do magistério. Depois, foi coordenadora curso de pedagogia na Faficop (Faculdade Estadual de Filosofia, Ciências e Letras de Cornélio Procópio). E, quando surgiu o curso de filosofia em Londrina, foi convidada para dar aula. Quando a UEL se tornou universidade, Estela passou a ser diretora do Ceca (Centro de Educação, Comunicação e Artes). Em sua trajetória, recebeu o Tide (Tempo Integral de Dedicação Exclusiva) de um dos reitores.

Elaborou e coordenou um programa do MEC (Ministério da Educação), em que os professores que não tinham parte pedagógica eram treinados para dar aula, como os médicos e agrônomos. Depois que o programa deu certo na UEL, o MEC pediu para que Estela levasse o projeto para várias universidades do Brasil, inclusive nas universidades federais. Após cinco anos, o MEC a indicou para coordenar o Programa Latino-americano de TeleComunicações. Ela viajou para vários países latino-americanos, como Argentina, Uruguai e Chile. “Eu mais aprendi do que ensinei, enriqueci muito, aprendi muita coisa”.

 

Londrina e Japão

Estela explicou que os londrinenses sempre foram muito receptivos com os japoneses e imigrantes, nunca sentiu preconceito por ser descendente. “Pelo contrário, sempre senti abertura pelas pessoas.” Mas contou que sentiu algo diferente, que a marcou, na época da Segunda Guerra Mundial, em que o Brasil estava do lado dos Aliados e o Japão do lado dos países do Eixo. Como os japoneses tinham muitos livros, revistas e discos com músicas japonesas, a polícia não queria que eles ficassem com esse bem material.

“Na cidade, eles invadiam ou entravam nas casas, vasculhavam e tiravam tudo o que lembrasse coisas do Japão. Tiravam, colocavam no quintal e mandavam enterrar. Houve até japoneses que foram presos, levados para Curitiba. E só depois que tudo terminou que eles foram trazidos novamente. Isso eu não critico, entendo que é uma reação humana até normal.” Porém, Estela conta que na casa dela nunca ninguém entrou. Talvez pelo fato da mãe dela ser muito influente na cidade: foi a primeira intérprete de Londrina em eventos que vinham autoridades do Japão e por ajudar os japoneses doentes a se comunicar com os médicos no hospital.

Estela revela que nunca sentiu vontade de sair do Brasil e voltar para o Japão. “Como nasci aqui, não tive em nenhum momento o sentimento de sair do Brasil e ir para o Japão. Talvez até pelo próprio convívio com meus pais. Eu me sinto parte de Londrina.”

 

 

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