Osiander Kochleitner: atrás de todo bom piano, há um ótimo afinador

Texto, fotos, áudios e vídeo: Ana Beatriz Pacheco

 

Carros. Buzinas. Um vai e vem de pernas e rodas. “Amendoim três por R$ 10”, um ambulante berra. Outro tenta um espaço em meio aos barulhos do centro de Londrina: “Chip Claro desbloqueado, já vem com R$ 20 de crédito”. Pombos pra lá e pra cá. Em meio ao caos, em uma das ruas mais movimentadas da cidade, está um artista oculto. No fundo de uma loja de instrumentos, ele ouve com cuidado os sons emitidos por um de seus pacientes: um piano de armário.

Osiander Kochleitner, mais conhecido como Neto, dedica-se a uma profissão que não tem tanto glamour: é afinador de pianos. Ele já possibilitou notas emocionadas a multidões do maestro João Carlos Martins; também, melodias improvisadas de jovens que treinam suas primeiras notas tímidas no piano. “A profissão que me escolheu”, relata. A mãe de Neto era professora de música e, por isso, ele entrou no mercado de restauração e venda de instrumentos musicais. Trocava um violão ali, um violino acolá. Até que um dia, na troca de um teclado, um piano chegou às suas mãos. “Comecei a afinar o piano por curiosidade, porque não conseguia encontrar afinador”, conta.

 

FOTO0

Osiander Kochleitner se dedica a uma profissão quase extinta: ele é afinador de pianos

 

A profissionalização veio com o convite de um afinador de Maringá. “Aí que aprendi mesmo a profissão. Antes era só amadorismo. Demorava um dia para afinar, hoje levo duas horas. Arrumava uma peça, desregulava outra”, ri. No começo, teve medo de não conseguir sustento por meio desse trabalho. “Meus pais até falavam que eu ia passar fome, que eu não tinha profissão.” Hoje, ele mantém uma loja de instrumentos no centro de Londrina e também trabalha com restauração. Ele considera a afinação de pianos sua aposentadoria.

 

FOTO1

A oficina de Neto fica escondida na sua loja de instrumentos, há 18 anos: atualmente, tem 22 pianos

 

Para realizar essa tarefa, segundo Neto, “é preciso ter paciência e ser extremamente detalhista, além de um bom ouvido”. No violão são seis cordas; no piano são 264, três para cada tecla. Existem mais de mil tipos de piano e cada um tem uma afinação específica.

 

 

Confira algumas fotos dos mecanismos de um piano.

 

FOTO2

Um piano de 1926, aos cuidados de Neto há anos; para cada tecla de um piano, são três cordas

 

FOTO3

Cada tecla tem um martelo, que é responsável por bater nas cordas e emitir o som

 

FOTO4

Um dos 88 martelos de um piano, um para cada tecla

 

Neto afirma que o mais difícil não é afinar o instrumento, mas regulá-lo e restaurá-lo. Um piano tem mais de 3.000 peças; se uma delas falhar, ele não funciona. Segundo o afinador, não é necessário saber tocar um instrumento para afiná-lo, basta ter conhecimento musical sobre as notas e bom ouvido. Com 24 anos de profissão, ele confessa: “Toco uma música ou outra, mas sou leigo nesse quesito. Sempre falo que sou o mecânico e pianista é o piloto”.

Além de afinar e restaurar o piano, Neto também cuida da logística do transporte. “Em grandes cidades, são duas pessoas diferentes que fazem esse tipo de serviço. Mas aqui em Londrina, tenho de fazer os dois.” O instrumento pesa em média 300 kg e ele conta com o apoio de só um ajudante. São usados cintos para mover o piano. “Na maioria dos prédios a gente consegue subir de elevador, mas tem vezes que temos de recorrer à escada”, relata.

 

FOTO5

Equipamento utilizado para carregar os pianos

 

Entre afinações, transportes e restaurações, aconteceram muitas histórias que marcaram a vida dele. Neto lembra de uma senhora, cliente fiel, que sempre afinava o piano de armário.

 

 

Segundo Neto, muitas vezes o piano é tratado com tanto apego e afeto que se torna praticamente um membro da família.

 

 

A maioria dos clientes do afinador é de muitos anos. “Eu acompanho um piano por muito tempo”, conta.

 

 

Neto atende todo Paraná e já foi viajar para o Mato Grosso e Rio Grande do Sul, seja para afinar um piano, seja para transportá-lo. “Já recebi proposta até para ir para Manaus”, ri. Um grande problema é a falta de profissionais na área. “Trabalho das 7h às 19h porque tem muito a fazer. Já tentei ensinar algumas pessoas, mas ninguém tem paciência de aprender uma nova profissão.”

 

LEIA MAIS

Eduardo Hatada: um chef em movimento constante

Estela Fuzii: a trajetória da primeira nissei nascida em Londrina

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s