Edson Henrique dos Santos: o guardião do VGD

Texto, foto, áudio e vídeo: Jeferson Macedo

 

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Edson no museu do Londrina Esporte Clube, que leva seu nome

 

Manhã de sol, nem os 17 graus em Londrina tiram o calor e o aconchego do Estádio VGD (Vitorino Gonçalves Dias), que tem como administrador e cuidador Edson Henrique dos Santos, torcedor do Londrina desde criança. Na parede o relógio, a moldura do retrato da neta e todo o seu escritório são cobertos pelas cores do clube. Isto mostra sua paixão pelo time.

A relação com o estádio começou cedo. “Eu, aqui no VGD, vinha com meu pai.” Sempre presente na torcida antes mesmo de ser funcionário do time, foi convidado para gerenciar a sede campestre, quando ela ainda pertencia ao clube. Cinco anos após, quando o VGD passou a ser do Londrina, o ex-presidente Dorival Pagani fez o convite a ele para coordenar a reforma do estádio. Com muito trabalho, tanto na sede quanto no estádio, ele teve de escolher entre um dos dois, e acabou optando por ficar na administração do VGD.

Apesar dos acessórios dourados, Edson se mostra muito humilde. Antigo morador de Cornélio Procópio, tentou a vida como músico em um conjunto da cidade. Violão, contrabaixo e acordeom eram alguns dos instrumentos tocados por ele. “Eu fazia baile, cara”, diz e complementa com orgulho: “Toquei com Vanderlei Cardoso e Os Incríveis”. Logo após a sua vinda a Londrina, trabalhou em uma empresa de frios, onde ficou por alguns anos antes de se tornar o “Guardião do VGD”.

As histórias contadas sobre o clube se misturam entre boas e ruins, como a venda do atacante Élber ao Bayern de Munique por US$ 1 milhão, que acabou ajudando tanto o clube quanto o próprio VGD; e a falta de comida para jogadores alojados no clube. Sobre esta última história, ele se orgulha de dizer: “Eu nunca deixei faltar comida”. Edson fez papel de um pai para muitos que já passaram pelo clube.

 

 

Santos comemora ao dizer: “Ainda bem que deu certo essa parceria com a SM Sports”. E se lembra de quando o clube estava afundando em dívidas e o VGD ficou praticamente abandonado. “A grama estava da altura da trave.” Por um tempo, foi o único funcionário do clube, e um de extrema importância, pois o mesmo negociava as dívidas do clube. “Olha, cara, tem R$ 3 mil. Se você não pegar hoje, não vai receber nunca mais”, diz, imaginando uma situação do passado. E assim quitou boa parte das 220 ações trabalhistas do clube, que hoje conta com apenas algumas ações.

Ao contar sobre histórias inusitadas desde que esteve à frente do VGD, lembra da primeira reforma no estádio, na qual ele diz que trabalharam até mesmo bandidos e foragidos. “Vira e mexe, víamos alguém sair correndo e a polícia correndo atrás, aí na outra semana o cara vinha receber, mas disfarçado.” No dia da inauguração, houve um alagamento no vestiário do Londrina. “Após 10 minutos de jogo, o roupeiro veio avisar que o vestiário estava alagado.” Outra é a que ele usava o próprio Fusca vermelho como ambulância para socorrer jogadores. “Aí eu já tirava o banco do carro pra pôr o cara machucado.”

As dificuldades com o estádio são antigas, e ele teve até mesmo de “brigar” com mendigos que estavam morando no local em seu período de abandono. Ele conta, por exemplo, que enfrentou um homem armado com um facão. “Eu andava com uma arma na cinta, porque era perigoso. Uma vez enfrentei um cara com um facão, saquei a arma, aí ele acalmou, conversamos e depois o contratei para trabalhar, e ficou muitos anos.”

A relação dele com os jogadores que passaram pelo alojamento é bem parecida com a de pai e filhos. Santos lembra das inúmeras vezes que deu dinheiro ao “Malinha”, apelido dado ao Rafinha, jogador que hoje atua no Bayern de Munique. O apelido era porque o jogador não deixava os outros colegas dormirem no vestiário. “Acordava todo mundo.” Ele também lembra de uma promessa feita pelo jogador. “Rafinha me disse ‘ainda vou vir aqui de carrão pra levar o senhor pra dar uma volta’.” A camisa do Red bull Salzburg, time austríaco, pendurada na parede do seu escritório traz a seguinte frase: “Para meu paizão Edson assinado Alan”, do próprio Alan que atualmente joga no futebol chinês.

 

 

Sobre o museu de LEC que leva o seu nome, Santos não disfarça a satisfação e a emoção. “Minha neta, bisneta vão ver meu nome, isso é gratificante.” O carisma e a vontade de contar histórias do clube mostram a satisfação de trabalhar na administração do estádio. Já aposentado, continua prestando serviços ao clube e confessa nunca ter pensado em trabalhar com futebol, mas que, após o envolvimento, é difícil sair.

 

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