O ímpeto e o silêncio: a busca por um sujeito oculto

Texto, vídeo e áudio: Victor Assis

 

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(Crédito: Ana Beatriz Pacheco)

 

Era fim de ano e toda a família se reunia na casa dos avós, no litoral do Paraná. Era dia de churrasco. Ninguém se recordava ao certo, se era uma quarta-feira ou sábado. O calendário não tinha importância, era sempre domingo. O patriarca, no alto de seus 89 anos, resistia ao sono para desfrutar da reunião que raramente se repetia mais de uma vez ao ano. Em refeições que deslizam ao longo do dia, o infinito acontece. Entre piadas e planos de viagens, cantos abafados e comentários sobre ex-companheiros. A mais nova dos três filhos do casal — minha mãe — comenta sobre o dia em que levei uma crônica de seu pai — meu avô — para ler em sala de aula.

Dada a situação, imagina-se que a leitura tenha sido uma atividade de alguma disciplina do ensino médio. Errado, era curso superior. Era jornalismo. Apesar de, por muitas vezes, mostrar-se ingrata, a profissão (ainda em seu período de incubação) tem seus momentos de catarse absoluta, como aquela aula de Técnicas de Reportagem III. Num ambiente que facilmente seria frequentado pelo narrador de “Clube da Luta”, leituras que materializavam aceitação, revolta e desamparo angariavam lágrimas a cada novo parágrafo. Contive-me ao máximo, custo a chorar. Como se todo pranto que segurei fosse se acumulando em um reservatório capaz de se transferir para as cavidades lacrimais de outra pessoa, aquele lamento explosivo e sufocante — como um maremoto — transcorreu para os olhos de meu primo, o protagonista da história, naquele domingo. Ou seria uma terça-feira?

Espantado pela curiosa afirmação de que meu primo nunca havia lido o tal texto, seo Deolindo logo buscou um exemplar de “A Eucaristia Nossa de Cada Dia”, tateou cirurgicamente suas páginas até alcançar, em poucas folheadas, o título do relato: “Quando o Coração Chora”. Naquela tarde, mais uma vez, o coração chorou profundamente.

Na história, meu avô narra um dos episódios vividos ao lado de Rodolfo Costa — até então Costa —, seu neto. Num difícil embate entre amar e ser amado, o pequeno, num ato declarado de resignação e maturidade, expressa a ausência de um pai. “Ninguém”, foi a resposta que laconicamente entregara aos adultos ao seu derredor quando perguntado sobre quem, afinal, era seu pai.

 

 

            Rodolfo nunca falou muito do pai. Pelo menos não para mim. Reservado que é, nossas digressões em verões tropicais e invernos marinhos navegavam pelo mar instável de Guaratuba, onde foi morar com os avós e sua mãe aos quatro anos de idade. Rodolfo e eu nascemos com poucos dias de diferença. Vinte e três dias, para ser mais exato. Nossa conexão sempre foi forte e nossos laços, ao longo do tempo, fortificaram-se a partir do diálogo e da troca de experiências. Mas quando a conversa caminhava adentro para temas familiares até chegar à ponta da mesa, Rodolfo silenciava.

            A resposta que dera ainda em sua primeira infância durou por anos, quando finalmente quis conhecer o pai. Foi com cerca de dez anos que ele se decidiu. Cerca de dez anos, assim incerto mesmo. Nas próprias palavras de Rodolfo, não é algo em que ele se preocupa em lembrar. Sem vacilar, mas distintamente preocupada, sua mãe arranjou tudo e foram para o interior do Tocantins, onde morava Roberto Charles Egito, pai de seu filho. Agora Rodolfo tinha um nome para quando perguntassem quem era seu pai. Não só isso, agora seu nome ficara maior. Rodolfo Costa Lima do Egito. Inclusive foi com seu último nome que passara a assinar. “Deixei de ser Rodolfo Costa para ser Rodolfo Costa Lima do Egito. Isso é uma das coisas que mais agradeço a ele, de verdade.”

            Da cansativa jornada em percorrer mais de 2.500 km de ônibus até Tocantinópolis, cidade com pouco mais de 23 mil habitantes, onde seu pai mora, ele lembra com certo carinho desbotado. “O tempo que passei lá foi muito bom e, ao mesmo tempo, mais ou menos. Percebi que não foi tão bom assim algum tempo depois, quando fui crescendo e analisando a situação inteira.” Ainda que a inócua presença do pai tenha sido uma enxurrada de novidades, sua visita foi sentida como tal. Em contato com o atípico, a vida continuava a acontecer: “Dessa semana que passei lá, o tempo com meu pai foi muito pouco. Coisa de dois dias. Em um desses [dias], saí para trabalhar com ele”. Do restante da semana, Rodolfo se recorda das pequenas coisas cotidianas que rodeavam Roberto. “Ele chegava do trabalho, sentava numa cadeira de praia em frente à casa e ficava bebendo. Eu ficava do lado pentelhando, brincando com as crianças da rua, mas nunca houve uma conversa. Até porque, sendo uma criança de dez anos, não sei o que conversaria com ele”, admite resignado.

 

Imagens do único encontro de Rodolfo com seu pai, Roberto (Crédito: arquivo pessoal)

 

“Chamei ele de pai, ele me chamou de filho. Foi uma das melhores sensações da minha vida.” Longe de ser um encontro que passou em branco, a criança provava na pele a desordem das relações humanas, permeadas por instantes de efusão e longas estações marcadas pelo refletir. “Esse contato foi ficando cada vez mais espaçado. Ao ponto em que ele me ligava em um Natal ou outro. Acho que a última vez em que falei com ele foi em um Natal, quando tinha 15 anos.” Hoje, prestes a completar 22 anos de idade, Rodolfo comenta não se lembrar mais da voz de Roberto.

A crônica narrada por Deolindo não é um caso isolado, muito menos história de ficção. Vinte e seis porcento das famílias brasileiras são de mães solos, mães que criam seus filhos sozinhas, de acordo com dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Privilégio de poucas mães, o apoio da família foi fundamental para o crescimento de Rodolfo. Em especial, a figura do avô fez parte de todo seu amadurecimento: “Quem sempre assumiu uma posição paterna foi meu avô Deolindo”. Ainda assim, a presença do pai se esvaía com a maré e o garoto, sempre criativo e articulado, lidava à sua maneira com a ausência. “Lembro que quando era mais novo, havia todo esse negócio da figura paterna na vida de todo mundo. Aquilo mexia bastante comigo. Era algo que me incomodava e me trazia uma tristeza bem forte. Via todo mundo com pai e eu sem. Então comecei a ‘mascarar’ tudo isso fazendo piadas sobre meu pai”.

 

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Tuíte de Rodolfo, aos 16 anos, no Dia dos Pais (Crédito: divulgação)

 

Na ironia de um tuíte, a resposta de Rodolfo aos eventos da infância se solidificam na vida adulta. “No fundo, é algo que ainda me incomoda, mas não é tão relevante. Agora com 21 anos, minha mãe está sempre presente do meu lado. Não é algo que seja uma pedra no sapato, ou coisa do tipo.” Silenciando a presença flutuante de Roberto, o rapaz mantém tudo o que diz respeito ao pai na espreita. Talvez, na esperança de um dia salvar o seu mundo.

É curioso perceber o esmero de Rodolfo com o sobrenome de seu pai, possivelmente o último vestígio que ainda resista à implacável ação do silêncio. Apesar de levá-lo no nome, poucos amigos têm conhecimento do encontro entre ele e Roberto. Já calejado pelo tempo e pela ausência, são raras as vezes em que a falta se expressa em pranto irrequieto. As lágrimas, no entanto, não se acanharam naquela tarde de quinta-feira. Ou seria domingo?

 

 

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