Abdou Faisol Bello: da África para Londrina por causa de um sonho

Texto, fotos, áudios e vídeos: Vinícius Eira

 

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Abdou chegou ao Brasil, enfrentou muitas dificuldades, mas nunca as deixou ser maior que seu sonho

 

Em uma ensolarada tarde de sábado, Abdou Faisol Bello, 27, recebe-me em sua casa, nos fundos de um escritório de advocacia na região central de Londrina. Estava conversando por telefone com o irmão, em francês, e a única palavra que entendi foi “journaliste. Ainda tímido, pede para não reparar na bagunça, oferece água, e se senta, receoso da entrevista. A casa, como ele mesmo diz posteriormente, foi um de seus maiores desafios no Brasil. Ele divide o mesmo terreno com outros imigrantes, e o lugar onde estávamos tinha uma sala com cozinha integrada, bem pequeno. Mas toda vez que contou sobre aquele lugar, demonstrou um certo orgulho.

Abdou é natural de Benim, país localizado na região ocidental da África, antiga colônia da França. Faz fronteira com a Nigéria, tem uma população de cerca de 10 milhões de habitantes e o islamismo é a religião principal. Logo após terminar seus estudos em telecomunicações no seu país natal, Abdou conseguiu o que classifica como o “direito de estudar design gráfico na UEL [Universidade Estadual de Londrina]” e rumou para o Brasil com um de seus irmãos, com roupa, comida local, sem saber falar português e apenas com a ajuda de seus pais que mandavam dinheiro para os dois. Mas a moeda local do país africano, o franco CFA, vale R$ 0,66 hoje, e Abdou diz que quase sempre precisou trabalhar para completar a renda.

 

 

Quando chegou a Curitiba, arrumou um emprego de serviços gerais em um restaurante. Começou a lavar pratos e, posteriormente, passou a auxiliar de cozinha. O restaurante possuía duas filiais na cidade, porém, um dos chefs foi demitido após algumas fraudes no local. Abdou, que estava havia quatro meses no estabelecimento, diz que teve uma injeção de coragem e pediu para ser efetivado para a vaga. Mesmo só olhando o chef quando estava de auxiliar, decorou todos os pratos e processos, e teve a oportunidade. Após dois meses no cargo, pediu demissão porque a rotina pesada estava impossibilitando o curso de português e, caso não fosse bem na prova, não entraria na UEL.

Em Londrina, o então estudante viu que não daria para conciliar um emprego com a faculdade, mas precisava de dinheiro para completar a renda mensal. Porém, de acordo com as regras do curso, só poderia fazer estágio a partir do segundo ano. “Foi então que conversei com a professora [e] chefe de departamento, e relatei minha situação. Ela foi muito boa comigo, levou isso para os outros professores e conseguiu a aprovação”, afirma. Após isso, Abdou conseguiu um estágio na Folha de Londrina, ficando dois anos fazendo anúncios no jornal.

Abdou ainda diz que a jornada na Folha não era tão desgastante quanto a do restaurante, porque todo dia ele aprendia algo novo, e gostava muito do que fazia. Por outro lado, disse que a função foi desafiadora, porque , como estava no primeiro ano do curso, ainda não sabia muito sobre a parte técnica do design, mas tinha a base de conteúdos que aprendeu no curso de telecomunicações. Além disso, garante que a chefe que teve no jornal foi muito importante para seu crescimento profissional, pois ela deixava bilhetes todos os dias para ele, quase como um passo a passo do que tinha que fazer. Fora isso, ele ainda assistia a tutoriais dos softwares que usava todos os dias, para tentar saber como usá-los da melhor maneira possível. “Às vezes na aula, um professor ia fazer algo em determinado programa e eu pensava ‘isso não vai dar certo’, mas não de arrogância, e sim porque já tinha feito o mesmo erro” , comenta sorrindo.

Passados os dois anos, teve que sair da Folha por causa do contrato do estágio. O jornal até queria efetivá-lo, mas novamente o visto de estudante impossibilitava Abdou de trabalhar e estudar, e ele teve que procurar outro lugar. E aí estava outra dificuldade em sua estadia no Brasil. Todos os lugares que tentava exigiam disponibilidade de horário pela manhã, mas o curso de design gráfico na UEL só tem aulas nesse período, deixando o estudante um tempo desempregado. Só conseguiu um estágio em um consultório de psicologia, como designer, onde está até hoje, mas atuando como animador de vídeo, ou seja, todos os vídeos animados ou imagens dinâmicas que saem nas redes sociais do consultório são de sua autoria.

 

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Abdou mudou sua expressão quando começou a falar de sua vida na África

 

 

E Abdou deixou uma grande família no Benim. Por parte de pai, são 19 irmãos, e pela mãe, ele era o filho único, até ela adotar duas crianças. Fora os inúmeros primos, afinal, todos os tios por parte de pai têm um número parecido de filhos. Entretanto, desde que chegou ao Brasil, nunca mais viu pessoalmente sua família, principalmente por conta do alto preço da passagem. “A última vez que vi, era R$ 4.500 para ir e voltar. É muita coisa, não tem como. Porém, a tecnologia ajuda bastante. Lógico que quero ver eles pessoalmente, abraçar e tudo mais, mas consigo conversar com eles diariamente, então ameniza bem. Mas estou me programando financeiramente para tentar ir neste final de ano, vamos ver.”

No Brasil, Abdou cita que, de tantas dificuldades, duas foram mais apertadas: o convívio social no início e a moradia. Quando chegou ao Brasil com o irmão, os dois achavam que iriam se entrosar e ser amigos de todos, mas ocorreu justamente o contrário. Eles ficaram um bom tempo tendo apenas um ao outro, mas entende que muito disso também é culpa deles, afinal, tanto os outros se fechavam para eles, como eles se fechavam para os outros, e ninguém tentava estabelecer uma ponte. Quando chegou à Londrina, Abdou já sabia que seria a mesma coisa, e buscou se abrir mais, mesmo com outras questões vigentes.

 

 

Sobre a moradia, seu principal problema era a burocracia. O designer indagava como um estrangeiro, que não tem ninguém no Brasil, vai conseguir achar uma pessoa que confie nele o suficiente para ser seu fiador. Por isso, sua primeira casa na cidade foi uma república na zona sul. Lá, ele ficou muito amigo de uma vizinha, e certo dia arrumou confiança e pediu para que ela fosse fiadora dele em uma casa nova, mas ela alegou ser muito nova para isso e levou a questão para o pai dela, que aceitou prontamente.

“Eles me ajudaram muito. Para você ter uma ideia, o pai dela arrumou toda a papelada da gente [ele e os imigrantes que moram juntos]. Certo dia, eu saí de casa pela manhã para estudar, trabalhei, e fui direto para minha futura casa ver como era lá, mas, para minha surpresa, ele fez toda a minha mudança também, não precisei levantar uma cadeira. Costumo dizer que passei algumas dificuldades no Brasil sim, mas também tive muita ajuda e uma certa sorte que alguns imigrantes não têm”, destaca Abdou.

 

 

E o jovem tem hábitos como qualquer outro. Uma das primeiras coisas visíveis em sua casa é um videogame logo abaixo da TV e, quando cheguei, Abdou assistia a um desenho animado. Além disso, quando jovem, tentou uma carreira como jogador profissional de futebol, mas foi atropelado, teve uma lesão grave no joelho e abandonou o sonho, que classifica hoje como impossível, visto a qualidade de outros jovens em seu país. Mesmo assim, Abdou nunca abandonou o esporte. Quando era discente de design na UEL, disputou atletismo em provas de 100 m , 200 m e revezamento 4×100 m pela atlética de seu curso. Hoje, é cornerback do Londrina Bristlebacks, time de futebol americano da cidade. Além disso, faz crossfit, anda de bicicleta constantemente e joga futebol com os amigos.

 

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Abdou aproveita a pausa na entrevista para responder a mensagens no celular

 

O designer ainda teve uma breve carreira como modelo em Londrina, que classificou como conturbada. Em fevereiro de 2016, Abdou saiu socialmente com alguns amigos, e uma menina, que era modelo, comentou com ele sobre a possibilidade de trabalhar em uma agência local. Interessado pela possibilidade, o jovem compareceu no dia em que estava marcada uma seletiva, mas descobriu que só para fazer o teste deveria pagar R$ 500, que poderiam simplesmente ser perdidos, caso não passasse, por isso, decidiu ir embora.

Porém, nesse dia, havia um homem no local (do qual preferiu não dizer o nome) que tirou uma foto de Abdou e postou a mesma nas redes sociais pedindo para que, se alguém o conhecesse, marcasse-o nos comentários. Por fim, Abdou foi atrás, recebeu uma proposta interessante, e ali fez o que considera uma de suas maiores bobeiras aqui no Brasil: assinou um contrato de exclusividade para ser modelo com a marca do empresário. “Tudo o que ele poderia me colocar regras, ele colocava. Eu não podia postar fotos zoadas em uma festa, porque ‘fazia mal para a marca dele’. Que tipo de jovem não sai com seus amigos e não tem vontade de tirar fotos ali no momento da diversão?” Abdou ainda relatou de um dia em que estava em um evento, e tirou uma foto com uma amiga. Mas o empresário acabou dando uma bronca nele porque a menina era de uma agência rival.

Após um ano trabalhando para a marca, Abdou decidiu cancelar o contrato, que tinha duração para mais quatro anos. O empresário o questionou, ameaçando processo judicial, mas o jovem alegou que não era pago regularmente, que o contrato não havia sido reconhecido em cartório e que ele não tinha visto de trabalho no Brasil. Com isso, o contrato foi cancelado. Hoje, ele até tira fotos para ajudar marcas de amigos, mas garante que desanimou muito desse mundo. “Aqui em Londrina, a maioria das agências de modelos só serve para te explorar e enganar. Já tive minha lição.”

 

 

Abdou sempre sorri, e tenta tirar o melhor de todas as situações. Enfatiza a todo momento que precisamos priorizar o diálogo, fazer o bem e ser melhor a cada dia, mas não melhor que o outro, e sim que nós mesmos. E mesmo dizendo não entender muitas coisas nas relações das pessoas aqui, consegue transmitir uma visão de mundo que falta para muitos de nós.

 

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