Germano: a trajetória do capitão alviceleste

Texto e áudios: Daniel Muniz

 

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Germano, o capitão londrinense (Crédito: Vinícius Eira)

 

“O Londrina é muito grande pra mim, o clube representa o meu início, meu sonho, meu reencontro, minha realização e meu fim [como jogador]. Tem um sentimento de família, porque é parte importante da minha vida. É difícil expressar em palavras essas sensações e me emociono muito.”

A declaração é de um velho conhecido da torcida londrinense que, entre os jovens jogadores que compõem o elenco do Londrina em 2019, ostenta a faixa de capitão e continua sendo um dos destaques do time. Aos 38 anos, Germano Borovicz Cardoso Schweger chega ao seu décimo ano com a camisa alviceleste.

 

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Germano e o jovem elenco londrinense antes do duelo contra o Bahia pela Copa do Brasil de 2019 (Crédito: Gustavo Oliveira/LEC)

 

Natural de Toledo, no oeste paranaense, o volante de 1,76 metro viveu a infância em São Pedro do Iguaçu, na época um distrito de Toledo. Morou no sítio da família, onde trabalhava com os pais. O futebol era o lazer e um sonho muito distante de Germano e seus amigos, que acompanhavam pelo rádio os destaques do futebol brasileiro do início dos anos 90.

“Tinha um grupo de meninos que jogava bola no campo da Igreja e nos inspirávamos em Neto, Zetti, Raí, Ronaldo Giovanelli e outros jogadores daquela época. Existia o sonho de se tornar jogador profissional como eles, mas era algo muito longe da realidade dos garotos de uma pequena cidade do interior”, testemunhou.

 

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São Pedro do Iguaçu, a região onde Germano nasceu (Crédito: Google Maps/Reprodução)

 

Apesar de não traçar a meta de se profissionalizar como jogador, Germano continuou a praticar o esporte como uma brincadeira. A primeira experiência em um ambiente mais competitivo do esporte veio em 1999. Na época, o volante tinha parentes em Maringá e foi à Cidade Canção fazer um teste no Grêmio Maringá e concluir o ensino médio em um município maior. Acabou jogando apenas uma competição na base do alvinegro e retornou a São Pedro do Iguaçu.

De volta à terra natal, Germano chegou a jogar por um breve período no Toledo Esporte Clube e depois disputou campeonatos amadores na cidade.

 

 

As despretensiosas partidas no futebol amador de Toledo acabaram levando Germano ao Londrina Esporte Clube. Foi por meio de uma indicação de outro jogador amador, sobrinho de um dos diretores da equipe alviceleste, que o menino de São Pedro do Iguaçu teve a oportunidade de fazer um teste no Tubarão. Disputou a Taça Cidade com a camisa alviceleste no final do ano 2000, mas voltou ao oeste paranaense. Em janeiro do ano seguinte, recebeu uma ligação para continuar no Londrina.

Era a oportunidade de dar um grande passo e chegar mais perto do distante sonho de se tornar jogador profissional. Germano, porém, estava receoso. A diferença entre a brincadeira do futebol amador e a competitividade das categorias de base de um clube profissional assustaram o garoto de 19 anos, acostumado com a vida pacata em São Pedro do Iguaçu. Entretanto, uma conversa com o pai, também chamado Germano, mudou tudo.

 

 

Inspirado pela conversa com o pai, Germano aceitou o convite do Londrina, pegou suas malas e se mudou para o alojamento do Estádio Vitorino Gonçalves Dias, o VGD. O icônico orelhão, instalado no campo do estádio, era onde o jogador passava boa parte de seu tempo livre, matando a saudade da família em longas ligações interurbanas.

A transição para a equipe profissional do Londrina foi rápida. Após disputar a Taça BH em junho de 2001, o volante, que na época jogava de meia avançado, estreou com a camisa alviceleste em setembro daquele mesmo ano.

“Sempre acompanhava os treinos dos profissionais da arquibancada e um dia o roupeiro do clube me falou que eu ia treinar com eles lá no Estádio do Café. Lembro que saí tremendo do ônibus e aí o Freitas Nascimento, que era o treinador na época, perguntou se eu estava bem fisicamente e me deu os coletes para distribuir aos jogadores. Fui entregando os coletes para o Gil, Nem, Edmílson e outro titulares daquele elenco e vi que sobrou um pra mim. Contei pra ver se estava tudo certo e, de fato, estava. Eu era o décimo jogador de linha daquele time. Isso foi em uma quinta-feira, no sábado fiz minha estreia contra o Joinville, lá em Santa Catarina, pelo Campeonato Brasileiro Série B”, relembrou.

O primeiro gol da carreira viria ainda naquela competição, em uma goleada histórica do Tubarão por 7 a 0 contra o Desportiva-ES em 8 de novembro de 2001.

Germano continuou no Londrina até 2004, ano conturbado em que o Tubarão caiu para a Série C. Despediu-se da cidade e passou por outros clubes brasileiros nos três anos seguintes: Gama-DF, Ceará, São Caetano-SP, Vila Nova-GO e Atlético Mineiro.

O clube de Minas Gerais, que retornava à elite do futebol brasileiro em 2007, foi a primeira oportunidade de Germano em uma equipe de maior expressão no cenário nacional. Também foi o clube em que o volante levantou o seu primeiro título como profissional, o Campeonato Mineiro daquele ano. A boa relação com Levir Culpi, treinador do Galo na época, levou o jogador de São Pedro do Iguaçu a outro continente.

Ainda em 2007, Levir Culpi foi comandar o Cerezo Osaka, clube que disputava a primeira divisão do futebol japonês, e levou Germano para ser uma das referências daquela equipe. Lá, o volante viveu um período artilheiro na carreira, marcando 17 gols em uma temporada, e jogou ao lado de Shinji Kagawa e Takashi Inui, atletas que disputaram a última Copa do Mundo pela Seleção Japonesa.

O futebol mais rápido e as diferenças culturais fora de campo marcaram a experiência de Germano na Terra do Sol Nascente.

 

 

Após dois anos no Japão, Germano retornou ao Brasil. Apesar do receio do jogador de ter as portas fechadas nos clubes daqui, depois da temporada no futebol oriental, o volante foi contratado pelo Santos e conviveu com o elenco histórico que encantou o Brasil em 2010 com as jogadas e dancinhas de Neymar, Ganso e Robinho. Em maio daquele ano, o volante do oeste paranaense foi para o Sport-PE, subiu para a primeira divisão com o clube e, em 2011, teve a lesão mais grave da carreira, uma pubalgia que o deixou parado por um ano e meio.

Germano só iria retornar aos campos em 2013 e no lugar onde tudo começou, o Londrina. Quis o destino que o adversário em sua partida de reestreia com a camisa alviceleste fosse o então Toledo CW (agora Toledo EC), clube criado em 2004 na cidade onde o volante nasceu.

Naquele ano, a equipe do Tubarão teve a melhor campanha do Campeonato Paranaense, apesar de não ter levantado o troféu de campeão. O elenco, que tinha jogadores como Wendell, atualmente no Bayer Leverkusen (Alemanha), Bruno Henrique, do Palmeiras, e Danilo, goleiro que faleceu no acidente da Chapecoense, é lembrado com carinho até hoje entre os torcedores.

No segundo semestre de 2013, Germano foi emprestado ao Coritiba e passou uma temporada e meia no clube. Da capital, o volante viu de longe o Londrina levantar o título de Campeão Paranaense de 2014 diante o Maringá FC.

“Essa final contra o Maringá foi um misto de emoções, fiquei triste por não estar disputando uma decisão, mas feliz em ver a garotada com quem joguei até pouco tempo conquistar um título, sabendo o que representava para os atletas e para o clube, que não ganhava o estadual havia 22 anos”, afirmou.

Em 2015, ele volta em definitivo ao Londrina e, no mesmo ano, conquista o acesso à Série B, 11 anos depois de participar daquela campanha que rebaixou o Tubarão à terceira divisão nacional. No ano seguinte, o volante teve a oportunidade de voltar ao VGD, quando o LEC disputou o Campeonato Paranaense em sua antiga casa.

 

 

Desde então, Germano foi campeão da Primeira Liga em 2017 e vem sendo o dono da camisa oito alviceleste.

 

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Germano ergue a taça da Primeira Liga com o zagueiro Dirceu (Crédito: Gustavo Oliveira/LEC)

 

O volante lembra com carinho do amigo Claudio Tencati, treinador do Tubarão de 2011 a 2017 que entrou para a história do clube e foi um dos responsáveis pela evolução alviceleste nesta década.

 

 

Hoje, Germano é um líder tanto para os jovens jogadores que compõem o elenco do Londrina, quanto para os torcedores mais jovens que, da arquibancada, idolatram o volante. “Sem demagogia, mas não me considero um ídolo do clube, apesar de saber que sou uma das referências para a nova geração pela minha história com o Tubarão. Então, procuro me cuidar, ser um profissional exemplar, servir de inspiração, ser alguém que a juventude possa olhar e ver que, com dedicação, é possível conquistar seus objetivos. Também é uma responsabilidade grande, mas é uma relação diferente da idolatria. Trato isso com naturalidade e procuro continuar fazendo meu trabalho”, disse.

Próximo de completar a marca de 300 jogos (297 até 6 de maio de 2019) com a camisa do Londrina e com contrato até o fim deste ano, Germano não pensa em pendurar as chuteiras e não se vê, como jogador, atuando em outro clube.

“Saí com 19 anos do sítio onde morei a minha vida inteira, não fiz base em lugar nenhum e cheguei ao Londrina. Acho que só depois que me aposentar vou conseguir externar de maneira mais clara o sentimento que tenho pelo clube mas, se fosse pra tentar resumir em uma palavra, eu escolho gratidão. Gratidão por me abrir as portas no começo de tudo e no retorno”, concluiu.

 

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Germano, dez anos de Londrina Esporte Clube (Crédito: Vinícius Eira)

 

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