Ormenzinda Pereira e a história de uma pessoa comum

Texto, foto, áudio e vídeo: Manu Soares

 

Talvez, se não tivesse deixado o perfil para a última hora, não teria encontrado uma personagem tão simples e carregada com diversas histórias do pequeno município em que vivo. O interfone foi tocado duas vezes e não obtive nenhuma resposta. Voltei depois de uma hora, mas desta vez o interfone foi tocado apenas uma única vez. Ela, como uma boa senhora que estava sozinha em casa, foi até o portão. Desconfiada. “Vamos entrar que conversamos melhor”, respondeu após saber qual era o objetivo da minha visita.

 

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Ormezinda procurando fatos do passado e contando suas histórias

 

Ormenzinda Aparecida da Costa Pereira, 86 anos, nasceu no interior de São Paulo, entretanto viveu a maior parte de sua vida no Paraná. Em 1938, aos seis anos de idade, mudou-se com a família para o que viria a ser um dos principais pontos de turismo aquático do norte paranaense — juro que não estou exagerando. Primeiro de Maio, realmente, em um passado não muito distante, já foi considerado um dos principais pontos de lazer da região.

Ah, menina, a maior parte disso aqui era mato. Tudo o que você vê hoje não tinha naquela época. Hoje, não conheço mais a cidade, os lugares. Quando cheguei aqui, havia poucas casas, poucas lojas.” Hoje, a cidade tem mais de 11 mil habitantes, segundo estimativas do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Apesar de parecer um número muito pequeno, Ormezinda lembrou que, quando chegou com a família, pouca coisa havia na cidade que, até então, era um distrito de Sertanópolis. Durante a fase de desenvolvimento da localidade, a flora, que era floresta tropical, foi devastada para dar lugar à agricultura, especificamente às plantações de café. Atualmente, apenas 1% das matas nativas está preservada.

 

 

Entre as lembranças e as pausas para os copos d’água, ela contou que, quando criança, vendia requeijão e queijos que sua família produzia pelas poucas casas que havia. Cidade pequena é uma coisa doida, né? O ano é 1939, todo o país está em uma fase de progresso, menos aqui. Como ainda havia poucas lojas, ela contou que um comerciante viajava para outras regiões e voltava com linhas de costura, linhas para crochê e o que mais lhe pedissem. E os veículos? “Cavalar, era assim que a gente chamava, sabe? Era assim: eu entregava os queijos montada no meu cavalo, saia de casa com cavalo e todas essas coisas. Os veículos eram carroças.”

Sentada embaixo do pé de manga que ela mesmo plantou, Ormezinda contou que estudar naquela época era complicado. A cidade não oferecia todas as séries, o que dificultava a conclusão do ensino fundamental e a realização de seu sonho.

 

 

Com um sorriso tímido, Ormezinda conta que aos 17 anos casou. “Nos conhecíamos desde criança, namoramos e casamos. Casei nova, mas era normal naquela época. Aos 18 anos, tive minha primeira filha e aos 20 anos tive meu filho.”

Mesmo após casada, ela não desistiu do seu sonho. Com os filhos casados, matriculou-se na faculdade e começou a estudar em Jandaia do Sul, a 130 quilômetros de Primeiro de Maio. Após três anos, concluiu o ensino superior e começou a dar aulas na cidade. Ormezinda trabalhou por 18 anos até se aposentar.

Sentada em uma mesa cheia de cadernos com anotações e números, a desconfiança foi deixada de lado para um abraço sincero. “Até breve, menina!”

 

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