Wilson Silva: conheça sua vida de alegria, superação e trabalho árduo

Texto, fotos, áudios e vídeo: João Gabriel Mariucci

 

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Artesão comercializa seu trabalho no centro de Londrina

 

Toc toc toc – um som familiar quando batemos em uma porta e pedimos permissão para entrar. Neste caso, porém, não era uma porta, tampouco pedimos permissão, pois nem foi preciso. Em uma ensolarada manhã, a simpatia e a alegria no rosto desse senhor já nos acolheram ao seu espaço logo de cara. Toc toc pra lá, toc toc pra cá, o barulho iria persistir do início ao fim. Barulho chato? Claro que não. Este era o som de um trabalho e, digo mais, trabalho minucioso, feito cada parte com enorme precisão, ou seja, um trabalho muito bem feito. Ressaltado por ele como um dom de Deus. Inclusive, sua fé está presente em cada etapa da sua vida, desde os momentos complicados em que a fé o moveu para novos rumos, até nas situações de alegria em que a fé justificou o bom momento.

O sorriso estampado no rosto era fruto de alguém feliz e realizado no seu trabalho. No vai e vem do Calçadão de Londrina está Wilson Silva, 55 anos, o sul-matogrossense fabricante e vendedor de raladores. A cada martelada era uma palavra, a cada palavra era uma história, a cada história, uma gargalhada.

Um aço no colo, uma chave de fenda em uma mão e um martelo na outra, assim ele faz seu artesanato. Sim, ele é um artesão, com documento e tudo. Mas isso você verá mais pra frente. Até porque, para chegar até esta fase atual, ele percorreu um longo caminho. Estradas da vida que envolvem diversos fatores e, em alguns casos, levam à felicidade. No caso dele, sem dúvida. De acordo com o artesão, este está sendo o melhor momento de sua vida, mais consciente e com um novo olhar sobre o mundo.

Para entender como ele chegou até aqui, é necessário ressaltar que não estamos falando de um londrinense, muito menos paranaense. A vida em questão começa ser escrita em 1964, a aproximadamente 500 quilômetros daqui. Nascido em Dourados, Mato Grosso do Sul, a sua jornada de trabalhos começou aos 14 anos, de uma maneira não muito habitual e, de certa forma, curiosa. Um cozinheiro que não sabia cozinhar, trabalhando em uma fazenda. Dali em diante, esse senhor acumularia alguns trabalhos em sua vida, aliás, trabalhador seria outro adjetivo que se encaixaria muito bem.

A seriedade com que leva o trabalho não o permitiu nem parar as marteladas no momento em que era entrevistado.

Já desempenhou funções como balconista, trabalhou em uma clínica veterinária e foi, por muitos anos, garçom. Mas se a jornada rodando em diversos trabalhos e funções foi bem extensa, o caminho até parar em Londrina não foi da noite para o dia. De Dourados, ele passou por várias cidades e acumulou experiências grandiosas.

 

 

Para nós que o conhecemos na fase atual de sua vida, jamais seria possível imaginar que esse senhor, forte e animado com seu trabalho, já passou por um sério problema com álcool. Casou-se, fez curso de garçom e trabalhou por vários anos na profissão. De um coma alcoólico, ele viu a necessidade de se recuperar e superar o momento crítico que estava passando. Assim, ele foi começando de pá em pá. Aliás, ele fala de suas pás com enorme carinho e não esconde a satisfação em mostrar sua obra.

 

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Artesão mostra com satisfação o seu trabalho: “Tenho um enorme carinho pelas minhas pazinhas”

 

Além de sofrer com o alcoolismo, ele morou na rua por quatro anos. Em 1994, essa jornada de artesanato começaria. Não foi nada fácil, visto por ele mesmo como uma batalha. Para chegar até aqui, ainda no Mato Grosso do Sul, ele precisou buscar a matéria prima no lixo, com latinhas de óleo. Mas, segundo ele, Deus lhe deu essa profissão e a oportunidade de seguir com a vida. Das pás vieram os raladores, ou como ele mesmo chama, “os ralos”. E assim, dos raladores, uma vida nova. De furo em furo, o senhor Wilson monta a sua arte. Diferentemente do mal humorado senhor Wilson do filme “Dênis, o Pimentinha”, este nosso senhor Wilson transborda alegria e entusiasmo, graças a Deus. A cada martelada e “furinhos”, ele vai transformando seu trabalho. Quando ele menos esperava, já tinha adquirido toda essa prática. E já pode dizer com toda propriedade que é um artesão.

 

 

E dessa maneira, Wilson vai levando a vida e seguindo seu caminho. Sentado em um banquinho no calçadão, com um guarda-sol, seus raladores e pás fazendo a fachada de seu negócio, ele não precisa de um alto-falante para vender seu produto, muito menos de negatividade em sua vida. Como ele mesmo prefere afirmar, temos que estar sempre de bem com a vida e agradecer a Deus por cada dia. Tratar bem todas as pessoas, independentemente de quem sejam. Há oito meses em Londrina, ele não pensa em parar tão cedo com a sua jornada. Daqui está indo rumo a Itatiaia, interior de São Paulo, encontrar e trabalhar próximo de seus amigos e pessoas que o amam. Por mais que tenha vivido sozinho por boa parte de sua vida, a solidão é algo que não lhe agrada. “Ficar sozinho às vezes é meio triste, principalmente nas datas comemorativas.” Nessa sua nova cidade, o sentimento de solidão estará bem distante. Como dissemos lá em cima, trabalhar é uma forte característica: quando se recuperar de um problema no joelho, ele ainda pensa em voltar a desempenhar a função de garçom.

Esse é Wilson Silva, o “Índio do Ralo”, como ele mesmo se denomina. De cozinheiro sem saber cozinhar, ele foi balconista, fez curso de garçom e acabou chegando ao artesanato. Passou por momentos muito complicados, mas deu a volta por cima com muita dedicação. Desistir? Essa palavra não existe no vocabulário do senhor Wilson. Além disso, o sorriso estampado em seu rosto é uma marca forte. Uma positividade sem igual. Com uma alegria contagiante e inspiradora. Se naquela manhã ensolarada, à procura de uma história para escrever este perfil, pensamos até em desistir, encontrar o Wilson foi um grande exemplo de vitória, assim como Tom Hanks em “Náufrago” (2000). Obrigado, Wilson!

 

 

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