A carne que não lia o verbo: Alice e Lia no mesmo corpo

Texto, fotos, áudios e vídeo: Mariana Ornelas

 

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“Perto da planta, fia”

 

“Eu enterrei meu nome.” Lia me disse isso rindo, com trejeito nervoso e arrumando a bandana do cabelo. Alice Maria Pereira dos Santos odeia seu nome. “Agarrei um ódio do meu nome por causa do pai dos meus filhos. Ele me chamava de Lice com uma ironia, arrogância… Quando larguei dele, disse que não era para me chamarem mais de Lice. Aí coloquei meu nome de Lia.” Ressaltou que, se a chamam de Alice, nem responde. “Esse nome morreu.” Pisciana de 59 anos, Lia pensa em muitas coisas durante o trabalho como doméstica. A distração é o rádio ligado e, às vezes, ligações telefônicas durante a tarde.

 

“Esse nome morreu.”

 

“Era criança quando vim para Londrina, tinha 10 anos. Aqui era tudo mato e terra.” Lia é a quinta filha de 15 filhos. Nasceu no interior do Paraná, em Santo Inácio. Com as pernas cruzadas, tomando água numa garrafa de suco de laranja, ela se ajeitava na cadeira cada vez que eu perguntava algo. Ria das próprias palavras. Tem cinco filhos: três de sangue e dois do coração (que adotou).

 

 

“Vai ser difícil largar, sou boa demais.” Fala assim de seu trabalho. É empregada doméstica há 20 anos na mesma casa. “Tenho curso de culinária. Faço uma comida de vó mesmo. Sou vó de todo mundo.” Tem 14 netos. Pergunto sobre o que ela gosta de fazer nas horas vagas. “Amo lavar roupa.” Pergunto de novo. Ela responde me explicando: “Eu amo lavar roupa. Gosto de deixar tudo sem nenhuma mancha. Principalmente roupa branca. Odeio coisa suja. Olha aqui a minha mão ó, só porque amo lavar roupa e cozinhar, não tem nada na vida que goste mais.”

 

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Mão bem feita

 

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Mão em processo

 

“Sou boa demais.”

 

Fala três, quatro palavras e respira ofegante. Lia teve um Acidente Vascular Cerebral em 2013 e, como disse, a única sequela foi uma arritmia que chega quando ela fica nervosa. Bebia muito antes do infarto. “Adoro uma cachacinha. Mas agora parei com a pinga. Só tomo vinho, whisky e cervejinha. Gosto muito de festa, sabe?! Reunir minha família e beber uma”, dá risada disso. Come pouco porque quer que sobre espaço para a bebida, já que, segundo ela, a cerveja enche demais. Faz uma vitamina de abacate para tomar e me oferece. “Essa vitamina aqui ó, igual a da Sergipe.” Pedi para fazer as fotos com ela, Lia correu e se arrumou. Perguntei se ela gosta de tirar foto. “Nunca tirei. Mas estou gostando.”

 

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“Vou posar para você”

 

Em uma dessas crises de arritmia, Lia ficou abalada com a tragédia que matou jovens estudantes em Suzano e não foi trabalhar. “Eu estava mal. As crianças que morreram lá em Suzano… Fiquei pensando nos meus netos, nos meus filhos. Me apertou tanto o coração, achei que fosse ter outro infarto.” Chorou na minha frente. Explicou que era muito sensível e que aquilo tinha mexido com ela. Sentada na cadeira de plástico, entre uma pausa e outra, dizia-me o que havia sentido: “uma dor aqui no peito, nossa. Parecia que ia morrer.”

 

“Uma dor aqui no peito.”

 

Separa as roupas que usa entre as que vai trabalhar e as que sai para passear no centro da cidade. Assim que chega na casa em que trabalha, troca a sapatilha por um chinelo gasto. A única coisa que não troca quando está trabalhando é o lenço do cabelo que usa combinando com a cor da roupa que está naquele dia. Lia se preocupa com isso. É vaidosa do jeito que pode. Adora vermelho. Enquanto eu converso com ela, Lia passa um creme de leite de ovelha nos cotovelos. “Foi isso que tirou as manchas das minhas mãos, esse creme é maravilhoso.”

 

 

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Marca registrada

 

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Da cor do coração

 

Ler é um verbo irregular. Alice mudou seu nome para Lia. Que na conjugação verbal, é pretérito imperfeito. A poetisa Carolina de Jesus aprendeu a ler quando era catadora de lixo e pegava livros. Com esforço, não só leu como escreveu uma vida inteira. Levei um poema de Carolina para Lia. “Quem disse que eu sei ler? Só leio o que escrevo. Só as minhas receitas.” Erro meu, erro crasso. Não perguntei a ela se sabia ler. Mesmo assim, disse-me “me fala esse poema. Você dita para mim e eu falo para câmera”. Adicionando palavras próprias, nasce um poema inédito de duas mulheres negras.

 

 

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Detalhes

 

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