Conheça R., a mulher que sabe o que é o amor

Texto, fotos, áudio e vídeo: Paula Zambrim

 

Foto 1

É a luz que faz florir

 

O que mais chama a atenção quando se conhece R. não é sua aparência e, sim, sua voz. O timbre ruidoso chega um pouco áspero aos ouvidos desprevenidos, e em nada sua voz se assemelha a seu rosto, que é doce e sereno. As mãos grossas e enrugadas também contrastam com as estampas delicadas e as malhas finas que ela gosta de usar. É nítido que R. é uma mulher de muitas facetas.

“Que sirva de consolo, de conhecimento, e para que um dia algum jovem escute e diga assim: não, eu também posso mudar minha história!” É assim que R. começa a nossa conversa, e é assim também que justifica o motivo de preferir se manter no anonimato. Forjada por uma miséria anterior a ela, desde muito nova precisou ajudar em casa, e as cicatrizes profundas de uma infância sofrida a acompanham por toda sua trajetória.

Com a serenidade de seus 63 anos, R. conta que seu pai tinha problemas com o álcool e fazia sua mãe sofrer demais, física e emocionalmente. A única forma de amor que conheceu no lar era violenta. “Comecei carregando água quando tinha oito anos de idade”, diz. Os trocos que conseguia eram para suprir a falta do dinheiro do pai. Em tudo, R. foi uma menina precoce: ela conta que aos 13 anos surgiu a oportunidade de trabalhar como babá: “fui trabalhar numa casa onde eu comia arroz, leite e sal todos os dias”. Enquanto ela me diz, não posso evitar de pensar que o sal é dado aos porcos para a engorda. Penso também na passagem bíblica do filho pródigo, que, depois de gastar a fortuna que herdara do pai, comia o mesmo que os porcos. Penso qual herança era esta da qual R. sofria as duras penas de ter gastado.

Pouco depois, aos 14 anos, R. conheceu um homem mais velho que queria se casar. Relutante a essa união – talvez por não ter tido um bom exemplo em casa –, R. decidiu que morar junto era o suficiente. E assim o fez. A partir daí, sua juventude infantil, praticamente sem cores, começou a ganhar tons vibrantes: aos 15 anos veio o primeiro filho e, pouco depois, o segundo. A paleta de cores voltou a ficar escura na vez do terceiro: este foi o filho de R. que nunca nasceu. Foi quando, para ela, o amor – antes violento – se assemelhou ao abandono. Depois do terceiro, vieram outros três: todos filhos do mesmo pai. Seis vezes ela engravidou, cinco vezes deu à luz.

 

Espinhos

Era Carnaval de 1986. Aos 25 anos, R. estava na casa da prima para comemorar as festividades. O ambiente estava especialmente agitado naquele dia. Nas palavras dela, era um tal de “vai pro quarto, sai do quarto, vai pro quarto, pra lá e pra cá”. R. havia tomado um pouco de cerveja – um hábito que não tinha – e fumado um pouco de maconha – um hábito que aprendeu com o marido. A inquietação a deixou curiosa e resolveu entrar para descobrir o que estava acontecendo. Agulha pra lá, agulha pra cá, pareceu uma boa ideia. Por incentivo da prima e dos amigos, R. estendeu o braço. Foi a única vez que usou droga injetável em seringa compartilhada.

Dois Carnavais depois, estava ao lado da tia, levando roupas para vestir o corpo inerte da prima que outrora fora anfitriã. Coberta dos pés à cabeça por roupas de isolamento, R. ouviu o perito dizer que as manchas na pele da prima eram devido à “peste gay”. R. sabia que não tinha aquelas manchas, nem havia perdido peso. Os cabelos também pareciam firmes e cheios. Aparentemente, não havia motivo para se preocupar, mas R. não pôde evitar de pensar na seringa. Guardou para si a dúvida, enquanto a tia lhe acusava de estar com a mesma doença – afinal, as duas estavam sempre juntas. Novamente em tons sombrios, o amor, para ela, pareceu um pouco com a humilhação.

Depois do velório, outros dois Carnavais se passaram. A vida já não era mais a mesma. R. não estava mais com o marido: havia o encontrado na cama com sua sobrinha mais velha. Depois da separação, ele ficou com os filhos, e ela os visitava. R. tinha começado a trabalhar em uma fábrica de tecidos, na ala de estamparia. A rotina que era antes ocupada pelos filhos passou a ser preenchida por passatempos, como futebol com os amigos e cinema. Em um sábado qualquer, R. decidiu assistir a algum filme que estava em cartaz. Ela tomou um banho e saiu de casa. Era final de tarde, e caía uma garoa branda. Voltou pra casa febril e dali a dois dias estaria no hospital.

Broncopneumonia e anemia, estas foram as causas do internamento. Ela precisou ficar de molho no hospital para o tratamento. Tudo o que ela conseguia pensar era na prima que falecera havia dois anos: antes de piorar seu quadro, a prima também tinha sido diagnosticada com pneumonia. R. decidiu então pedir aos médicos um exame para HIV. Ela teve que ficar mais dois meses hospitalizada, aflita, até receber o resultado.

 

 

Cinco anos. Este era o tempo de vida que R. tinha pela frente. “Não posso deixar meus filhos sozinhos.” A família foi a única motivação que ela teve nesse momento, então jurou para médica, e para si mesma, que iria se cuidar. Tentou ter o máximo de controle sobre sua saúde, mas não pôde ter controle sobre a própria vida.

 

Foto 2

Por mais firme que segurasse, a vida permanecia frágil em suas mãos

 

Muito tempo pareceu passar até a chegada do quinto Carnaval, depois que R. teve alta. Apesar de estar bem, com a imunidade alta e boas perspectivas, não podia evitar a melancolia. Ela sentia que estava no limite do tempo estimado pelos médicos e pensava “desta semana eu não passo”. R. esperou a morte naquele ano, e ela veio. Aos 19 anos, Júnior – seu filho mais velho, que havia sido diagnosticado com epilepsia quando ainda era criança – teve cinco ataques no mesmo dia, e seu coração não aguentou. Ao partir, partiu também o coração da mãe, que viu o amor como impotência.

Cerca de oito anos depois, quando havia quase remendado os pedacinhos que ficaram de seu coração, cada esforço feito pareceu ter sido em vão. Aos 43 anos, R. descobre – pelo jornal – que o carro de seu ex-marido havia se envolvido em um acidente na estrada. Junto com ele, estavam também os quatro filhos, todos do mesmo pai – o mesmo que dirigia. Cinco vezes deu à luz que, de uma só vez, apagou-se. Para R. o amor era, definitivamente, um rasgo no peito.

 

Foto 3

Na cozinha, seis cadeiras a mais do que precisava

 

R. já tinha 45 anos, quando viu na rua o único lar possível. Sem família para cuidar, tinha o vício como única coisa pela qual buscar sustento. Isto porque encontrava nas drogas a companhia para o vazio que a atormentava. R. já conhecia alguns entorpecentes da época da juventude, mas foi só adulta que conheceu o crack. O vício tomou o controle da sua vida de tal forma, que precisou catar latinhas em troca de moedas. “Não achava certo me prostituir, porque não queria infectar ninguém.” Nesta época, o amor era pura indiferença.

Fazia quase duas décadas desde a fatídica conversa em que a médica lhe dera apenas cinco anos de vida. Ela deveria evitar a chuva e o sereno, as noites mal dormidas e a má alimentação, tudo para que sua imunidade não caísse. E lá estava R., dormindo debaixo de marquises, ao lado da sujeira, em meio à noite chuvosa, e com o estômago vazio. Enquanto ela me conta sua história, penso que ela não havia comido o alimento dos porcos, e sim o pão que o diabo amassou.

Até que, finalmente, tons alegres timidamente voltaram a colorir sua história. Em uma das inúmeras noites frias e chuvosas em que R. vagava pelas ruas, algo de diferente aconteceu. Ela se aproximou da marquise sob a qual tinha o costume de dormir, e viu que o senhor com quem sempre dividia o espaço estava agora acompanhado por duas mulheres. R. nunca as tinha visto. Elas usavam vestes estranhas, parecidas com uma espécie de túnica marrom com um cordão amarrado na cintura. Elas também usavam véus que escondiam os cabelos. Para R., o mais estranho não era o que elas vestiam, mas o que elas faziam: aparavam os cabelos e as unhas daquele senhor de rua.

“Nunca imaginei que existissem pessoas que fizessem isso.” Sobre aquela noite, R. conta que uma das mulheres lhe perguntou: “O que o senhor acha desse novo corte de cabelo do irmãozinho?”, e ela, envergonhada, respondeu: “Eu não sou senhor, sou senhora!”. R. teve sua feminilidade ferida pelas ruas. A religiosa, constrangida, desculpou-se e ofereceu um corte de cabelo, uma marmita quentinha, e o irrecusável: uma casa para morar. Sim, assim, do nada.

R. conta que desde o fatídico acidente de carro, pedia a Deus todos os dias por uma nova família. Naquela noite, ela ouviu a mulher explicando que era religiosa, de uma comunidade de carisma franciscano, e que dedicava sua vida aos homens e mulheres de rua. Naquela noite específica, estava ali para lhe oferecer um lar. Se R. quisesse realmente, bastava deixar suas bagagens para trás, e seguir com outras irmãs para a casa das religiosas. Ela não pensou duas vezes. Sabia que a jornada para se afastar dos vícios novamente seria demorada e turbulenta e, apesar dos muitos encontros pela vida, R. tinha a sensação de que ainda não conhecia verdadeiramente o amor. Por isso, decidiu aceitar.

 

Aguar para florescer

 

Foto 4

Em meio aos espinhos, encontrou-se com as flores

 

A chuva que antes fora branda e trazia consigo más notícias, agora engrossava ferozmente, trazendo boas novas. Chuva de água que lavou o corpo, chuva de graça que lavou a alma. R. me faz pensar em como as dívidas são sempre todas pagas: a família que tivera escapou por seus dedos de uma só vez. A nova família que chegava caía em seu colo do mesmo modo.

 

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Foi do alto que veio a salvação

 

As irmãs, como carinhosamente são conhecidas as religiosas da Fraternidade Toca de Assis, foram para R. também mães, filhas e amigas. Na casa de acolhimento, R. pôde receber mais do que roupas novas e comida fresca. Pôde receber também a oportunidade de recomeçar, que ela agarrou com força. Com ajuda de religiosos e leigos, R. conseguiu se afastar dos vícios e, desde de então, não voltou atrás – já faz 12 anos. Nesse processo, descobriu a coisa que mais gosta de fazer no mundo: doar-se aos outros.

R. é o tipo de mulher com infinitas limitações que a impediriam de ajudar os outros: a saúde, a idade, a história. Mas por essas mesmas limitações é que R. não encontra mais limites na vida. Ela é o tipo de pessoa que se dispõe a passar a madrugada junto com a amiga no hospital, só para fazer companhia – ela desmarcou comigo por esse motivo. R. é também o tipo de mulher que diz não ter problemas em pegar um ônibus de Jaguapitã até Londrina – cuja distância aproximada é de 57 km – só para que este texto fosse feito. É também o tipo de cristã que diz não sentir o direito de reclamar, apenas de agradecer pelo fato de ainda estar aqui. E, por fim, R. é o tipo de pessoa que me ensina e, talvez, te ensine, o que de fato é ser uma pessoa melhor.

Mesmo com toda dificuldade e com tantas coisas que não eram amor, mas que se apresentavam para ela como tal, R., com a serenidade de seus 63 anos, olha-me e diz, com a maior convicção, o que ela sabe que é o amor.

 

 

Obrigada, R.

 

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