Karina Tatscheva: ritmo de atleta também fora das pistas

Texto, fotos, áudios e vídeo: Ana Elisa Frings

 

Ela é tímida. Fala baixo e hesita um tanto quando é para falar de si mesma. A conversa demorou para acontecer, já que, em duas tentativas de agendamento, Karina teria treinos, mesmo em sábados à tarde. A ciclista de 22 anos atualmente treina em Maringá, apesar de morar em Rolândia. A equipe, a 75 km de casa, é sua nova sede de treinamentos e a esperança por melhores condições de preparação, fator essencial para seguir no ciclismo como profissional.

 

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Karina Tatscheva da Silva, 22, nasceu em Piracaia (SP), mas veio ainda pequena com os pais e irmãos morar em Rolândia

 

O ciclismo veio por acaso, mas não o apego pelo esporte. Filha de pai jogador de futebol, Karina sempre soube que seria esportista. Imaginava-se no atletismo ou futebol como o pai ou até poderia jogar vôlei. Até que, durante uma competição escolar, quando disputava provas de atletismo, José Ricardo Moraes – seu futuro primeiro treinador -,  ao assistir seu desempenho, achou que ela teria jeito para o esporte com bicicleta. Veio o convite para começar a aprender. Karina tinha 14 anos.

 

 

As conquistas

No ano em que começou os treinos pela equipe de Rolândia, Karina ganhou sua primeira prova, na cidade de Nova Andradina (MS), como campeã na categoria Elite. A pontuação valeu para o ranking nacional e ela competiu com as melhores atletas do país. Teve bom desempenho também no Jeps (Jogos Escolares do Paraná), em julho, evento que reúne atletas de 15 a 17 anos do estado. Ela competiu em três categorias, ficou com uma medalha de prata e duas de bronze.

Em 2015, foi campeã paranaense na categoria Júnior (de 17 a 18 anos) em competição realizada em Londrina.  Nos jogos regionais de São Paulo, foi a campeã da prova de resistência e vice-campeã da prova por pontos, em Santa Bárbara do Oeste.

Durante os anos de 2014 e 2015, recebeu a bolsa estadual para atletas em categorias de base, a chamada bolsa Top 2020, um programa do estado do Paraná com o patrocínio da Copel (Companhia Paranaense de Energia).

Em 2016, já na categoria sub-23, foi vice-campeã paranaense, em prova disputada em Londrina. Na prova tradicional de Nova Andradina, o Grande Prêmio 1º de Maio, obteve a terceira colocação.

 

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Karina e sua bicicleta: o retrato da realização

 

Karina compete também nas modalidades ciclismo de pista – disputada em velódromos -, com foco na velocidade dos atletas, e na BMX, conhecida também como bicicross, estilo que usa bicicletas menores, porém mais robustas para suportar provas de manobra e também de velocidade. Em 2017, foi campeã paranaense de ciclismo de estrada.

Em 2018, venceu pela terceira vez a prova em Nova Andradina. E também foi a quinta colocada na prova do campeonato brasileiro sub-23, realizado em Maringá. Para ela, outro resultado muito bom, já que competiu com as melhores atletas do país.

Nos Jogos Abertos do Paraná, em Londrina, no final de setembro de 2018, foi a segunda colocada então competindo pelo novo time, o de Maringá. No campeonato paranaense de pista, foi vice-campeã na prova de perseguição individual, quando atletas primeiro disputam pelo melhor tempo e somente os quatro melhores colocados seguem para a competição que vale medalha. A distância percorrida nessa modalidade é de três quilômetros para as provas femininas.

 

2019

 O ritmo está mais lento e cauteloso com as competições agora em 2019. Karina está preocupada em não se cobrar demais e se livrar dos problemas de sono que tem enfrentado e do ganho de peso ideal, que não está conseguindo atingir.

Ela diz ter colocado muita pressão sobre seus próprios objetivos e agora precisa reavaliar sua rotina e pensar na preparação para a próxima competição importante. Será o campeonato brasileiro, em junho. Sua meta é estar entre as três primeiras colocadas. É o principal campeonato para ela e sua equipe e será disputado em Paulínia (SP).

 

Resistências e preconceitos

A decisão de seguir em dedicação total ao ciclismo não gera tanta euforia entre sua família e alguns colegas e conhecidos. Em casa, costuma ouvir que talvez não devesse direcionar tanta expectativa em uma atividade apenas, sem, porém, deixar de receber apoio por sua escolha.

Entre alguns colegas, ela cita comentários que julga preconceituosos e têm o efeito de desestabilizar sua confiança. Como quando mencionam sua forma física abaixo do necessário para as longas provas. Tais atitudes atingem a atleta, que já mostrou ser exigente além do suficiente consigo própria.

 

 

Apesar da pouca estrutura para treinos e competições, Karina tem resultados excelentes. E se esforça para não absorver tanto as energias negativas.

 

Apoio, ponto crítico

 

 

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Em seu novo time, o Maringá, Karina acredita que vai voltar a liderar as provas e a vencer como antes

 

Algumas equipes de atletas, como a de vôlei de Maringá, têm apoio psicológico. Mas não é o caso do ciclismo, até o momento. Ela reconhece que receber um acompanhamento para a saúde mental seria muito importante, “para o corpo e cabeça trabalharem juntos, do contrário o conjunto não funciona bem”, diz convicta.

Agora no Maringá, ela recebe uma bolsa melhor como atleta. Ainda que o valor não cubra todos os gastos que tem, ela demonstra que estar em um esquema de treinamentos e estrutura mais organizados vai ser bom para ela.

Houve um período anterior em que decidiu buscar uma equipe melhor, em São Paulo. Sozinha, ela precisava pensar em conseguir passagens para as corridas, alimentação, hospedagem e outras preocupações diárias que consumiam sua concentração nos treinos. Karina competiu por São Bernardo do Campo durante dois meses. Das cinco provas que participou no estado vizinho, ganhou duas, teve um segundo lugar e outro terceiro. Na última prova, não conseguiu acompanhar o grupo, pois já não estava bem. Ainda que sobrecarregada, reconhece que teve resultados excelentes em tão pouco tempo.

Além da bolsa como atleta, que basicamente atende às necessidades de manutenção da bicicleta, a ciclista conta que outros tipos de apoio recebido são imprescindíveis para sua carreira.

 

 

Presente e futuro

A anemia preocupa. Exames em fevereiro mostraram que o corpo está realmente debilitado, que o cansaço extremo tem uma razão fisiológica de existir e a qualidade do sono está bastante prejudicada. Segundo ela mesma, com tanta atividade para pensar, não se deu conta que o problema com sua nutrição estaria atrapalhando seu rendimento. Não falta fome, ela explica, mas falta ânimo para levantar da cama e ir se alimentar.

 

 

Embora os percalços na saúde estejam limitando sua rotina, Karina mantém o desejo de seguir no esporte e especialmente ter formação superior na área. Ela pretende voltar à faculdade de educação física no meio deste ano. Com a ida para São Paulo e a troca de time no segundo semestre de 2018, ela teve de deixar o curso.

A formação como educadora física vai permitir que ela siga conectada ao esporte, independentemente de como isso será no futuro. Uma das opções seria preparar meninas mais jovens para o ciclismo, na escolinha criada em Rolândia pelo seu primeiro incentivador, Ricardo Moraes. Ser professora ou ser uma personal trainer, ou ainda ter uma assessoria na área de esportes.

Os resultados até aqui como ciclista são bons, avalia a atleta, mas podem melhorar, ela logo emenda. “Com a minha estrutura pequena eu conquistei muito; com o pouco que tenho. Mas dá pra conquistar mais.”

 

 

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