Walter Ney: um homem de muitos talentos

Texto, áudio e vídeo: Camila Alves

 

1

Atleta, desenhista, viajante: Walter Ney reúne todas essas definições, mas o norte de sua vida é a fotografia (Crédito: Camila Coelho)

 

Ao chegar ao endereço da entrevista, sou recepcionada logo na portaria do prédio por um homem sorridente carregando um livro, um jornal e um caderno. No auge de seus 61 anos, Walter Ney Almeida Rego me acompanha até uma mesa ao ar livre para conversarmos, já que o clima está agradável, com um sol fraco e vento ameno. Seu jeito bem-humorado corresponde à maneira como está vestido: camiseta florida, bermuda e tênis. Confortável e tranquilo. Começamos a conversar, mas notamos que ambos estávamos mascando chiclete, ao que ele fala: “com o chiclete fica ruim para gravar, não é? Vou colocar aqui em cima do banco, mas eu jogo fora depois, viu? Quando eu era criança que a gente grudava embaixo das mesas, mas hoje não”.

Nascido no sertão da Bahia, em Lagoinha ou, como é conhecida hoje, Andaraí – um patrimônio rural do distrito de Ubiraitá -, em 1957, com apenas dois anos de idade, veio com sua mãe para o norte do Paraná em um caminhão pau de arara em uma viagem que durou 15 dias. Em Londrina, passou a meninice na Vila Recreio, bairro antigo da cidade, fonte de inspiração para seu livro de crônicas “Tempo de Infância”. Walter Ney me entrega um dos exemplares com todo o cuidado. “Só tenho mais seis desse, senão te dava”, explica ele timidamente. Ao ler seus causos em sua obra, percebo como um menino apaixonado pela televisão e pelo cinema acabaria se tornando o fotógrafo que é hoje – não se enquadrando apenas nessa definição, mas já voltamos a isso.

Desde jovem, cultivou uma atração ferrenha por desenhar, ler, escrever, colorir e praticar esportes. “Sempre fui uma pessoa muito ativa. Desde pequeno gostava de fazer muita coisa e toda vez entrava de cabeça nas atividades”, relembra. O sonho de ser atleta veio dessa época e, como a maioria dos garotos brasileiros, a paixão inicial foi pelo futebol. Aos 13 anos, iniciou os treinos de futebol em uma escolinha da Prefeitura de Londrina que era administrada pelo ex-goleiro do Londrina Zeferino Pasquini. Ney participou até mesmo do primeiro grupo de ginástica de solo de Londrina. Naquela mesma época, Ney tomou gosto pelo atletismo, incentivado por alguns professores que viam seu potencial, mas, como a vida é feita de escolhas, precisou optar por seguir uma carreira mais estável, sendo aprovado no concurso para a Polícia Federal aos 20 anos. Porém, outra paixão entrou em sua vida ainda adolescente.

 

 

Mesmo que com esse vizinho Walter Ney não pintasse detalhes, apenas o fundo, o processo artesanal dentro da fotografia já o encantou. “Eu não criava as fotos, mas comecei a ir nos laboratórios e ver como os retratos eram ampliados e tratados. Então, aos 18 anos comprei minha primeira máquina, que foi uma xereta. É uma ‘maquininha’ que tem praticamente 2 cm por 10 cm, parece uma carteira. A partir disso que comecei a fazer minhas próprias fotos, que tenho até hoje o negativo. E desde aquela época comecei a ter a noção de ensaio, porque queria fotografar minha família do Sul para mostrar para minha outra família no sertão da Bahia, já que comecei a trabalhar na Transbrasil [companhia aérea], o que me ajudou a viajar, conhecer o Brasil e a ser andarilho. Na sala da minha casa, tenho uma foto do sertão. Ela me lembra diariamente de onde vim.”

Ao falar de sua casa, ele me convida a subir ao seu apartamento. Logo que entramos, a primeira imagem é um sofá com dois gatos deitados confortavelmente em cima. Ambos cheiram meus tornozelos, para logo em seguida se esfregarem na minha calça preta. Um deles, Neguinho, não vai deixar vestígios de seu pelo; já Branquinha, como o próprio nome diz, não terei como disfarçar. Ao fechar a porta é revelado um quadro com uma icônica fotografia da ponte do Brooklyn, em Nova York. Em um relance, vejo pilhas de livros de fotografia no rack da televisão e uma biografia de Fellini. Apenas mais três quadros estão emoldurados: uma paisagem da Amazônia, uma orquídea com reflexos de raio-X se sobrepondo (novo projeto do Walter) e um quadro com três fotos de sua esposa. A sala contém pouca mobília: o sofá, o móvel da televisão, uma cadeira de diretor – que denuncia a paixão pela sétima arte – e uma mesa simples com quatro cadeiras. Enquanto exploro o resto do local, ouço Ney me oferecer algo para beber.

 

2

Neguinho deitado calmamente no sofá ao lado de uma fotopintura (Crédito: Camila Coelho)

 

3

Livros sobre a arte da fotografia e poesia abarrotam os móveis da casa (Crédito: Camila Coelho)

 

4

A sala de estar de Walter Ney (Crédito: Camila Coelho)

 

5

Branquinha olha o mundo pela janela (Crédito: Camila Coelho)

 

Ao seguir o corredor, o primeiro cômodo à esquerda possui apenas um sofá de dois lugares e uma prateleira cheia de livros e globos terrestres. Em cima do sofá, uma bolsa antiga do seu primeiro emprego na companhia de viagem compõe o cenário. Ele aparece com um copo de suco natural de maracujá – talvez em uma tentativa de acalmar esta jornalista de primeira viagem na experiência de escrever um perfil. “Aqui nessa bolsa estão algumas câmeras que uso. Essas são as descartáveis, que infelizmente hoje são difíceis de encontrar, e analógicas, mas hoje mesmo com as câmeras de celular eu faço fotos.” Nesse quarto apenas um quadro na parede: o momento que foi campeão no salto à distância em uma competição na Austrália. A casa reflete um pouco a personalidade de seu dono: fotógrafo, viajante e atleta – não necessariamente nessa ordem.

 

6

Globos da coleção de Walter (Crédito: Camila Coelho)

 

7

Câmeras de filme e descartáveis (Crédito: Camila Coelho)

 

8

Quadro da vitória (Crédito: Camila Coelho)

 

A vontade de estar em movimento, ver coisas novas e conhecer pessoas diferentes é a essência de Ney, que relembra suas memórias não com um ar de nostalgia triste, como se o melhor já tivesse acontecido, mas como alguém resolvido com seu passado. “Sempre gostei de mapas, geografia, o mundo. Sou apaixonado pelo mar, por globinhos terrestres. Até coleciono eles, tento comprar de todo lugar que visito, e olha que já fui para todos os continentes, faltam só os polos”, fala Ney entre risos. “Mesmo na Polícia Federal trabalhei no setor de imigração, uma das coisas que mais tenho orgulho. Fiquei no porto de Paranaguá e visitava os navios. Foi uma experiência riquíssima para mim. Cada embarcação era uma história, você visitava o país ao entrar, o navio se transformava em museu. Depois comecei a viajar pelo mundo todo, um desejo que sempre cultivei. Parece que uma coisa foi encaixando com a outra na minha vida”, explica.

O desejo de retratar o mundo por meio das lentes o seguiu durante toda sua trajetória. “Acho que, mesmo se não viajasse como um atleta ou como policial federal, teria viajado para fotografar. Desde jovem tracei meu caminho de modo que pudesse ser útil, um servidor público que atendesse outras pessoas. Quando vim para Londrina também trabalhei por dez anos no setor de imigração ou setor de estrangeiros. De certa forma, sempre tive uma função extremamente humanista dentro da Polícia Federal. Ajudei pessoas que conheço até hoje, o que me fez desenvolver um projeto fotográfico que chama Diálogos e Fronteiras, com pessoas dessa época.”

 

“Depois comecei a viajar pelo mundo todo, um desejo que sempre cultivei. Parece que uma coisa foi encaixando com a outra na minha vida”

 

A parte de Ney que é atleta parece um pouco dormente, mas na verdade sempre esteve ali. Desde criança, a vontade de se movimentar era imperativa e depois, mesmo com 30 anos de serviço na Polícia Federal, a paixão pelo esporte continuou viva. “No serviço, eles incentivavam atividade física por meio de corridas. Fui participar de umas competições e fiquei bem classificado, o que me fez ver que ainda tinha um ‘restinho’ [de si] para aproveitar ali. Então, quando me aposentei, percebi que dava para unir essas duas paixões – a fotografia e o esporte. Hoje me dedico e treino de duas a três horas por dia. Participo de competições internacionais, tanto que agora em agosto vou para um mundial na China.” Ao mencionar seu próximo destino, Ney se levanta e busca algo em outro cômodo. Ao voltar, mostra aqueles livros de viagem em que você conhece um pouco sobre o país, sua cultura, as curiosidades, os monumentos históricos, a culinária. Nada de pacotes turísticos clichês para Ney.

Tudo que o Ney conta e mostra é com uma faísca nos olhos, com uma vontade de fazer bem feito. Para fechar o ciclo da aposentadoria, o ex-policial não quis ficar parado. “A maioria das pessoas fala que o aposentado é o inativo, e eu sou o exato oposto, o extremamente ativo. O esporte já foi pensado para dar uma sequência na minha vida, por ser algo que tinha interesse desde moleque. E outra coisa, o sonho não tem idade. Todo mundo pode ser um poeta, um jornalista, um atleta, em qualquer momento da vida. Não é porque a pessoa tem 50, 60 anos que ela tem de ficar sentada sem fazer nada. Eu cago e ando pra idade.”

A motivação de fazer projetos fotográficos, de viajar, de participar de corridas, entre outros afazeres, precisa ser cultivada. “O que dá o gás são as pequenas coisas. Tudo vai se amarrando. Você tem que ter algo que te mantenha ativo, que te dê vontade disso. O que me dá isso é a arte, a cultura, os filmes, os livros e, obviamente, a fotografia. Sempre tento ir a museus, a exposições e a mostras, estudar sobre algo diferente, para não ‘estacionar’ no tempo, e aflorar a criatividade.” No que tange o aspecto de criação, Ney me guia ao outro quarto, este com uma cama e um móvel que é escrivaninha e estante, abarrotado de livros. Ele começa a tirar algumas caixas para me mostrar seus projetos, suas motivações. “Me sinto uma pessoa extremamente completa nesse sentido criativo e físico. Corpo são, mente sã, esse tipo de coisa.”

 

9

Metalinguagem: Ney mostra seus trabalhos fotográficos enquanto eu o fotografo (Crédito: Camila Coelho)

 

Na primeira caixa estão as fotopinturas que iniciaram sua trajetória como fotógrafo. Esse estilo era muito comum antigamente, porque, se tirar uma foto já era um evento – e de alto custo -, tê-las reveladas era raríssimo e, coloridas então, era símbolo de status. Dessa forma, a aplicação de cor em alguns detalhes por meio da pintura se tornou algo comum até entre as pessoas menos abastadas. “Muitas vezes, a família não tinha foto com o avô, por exemplo, então elas pegavam uma 3×4, ampliavam o rosto e pintavam o corpo. Também havia aqueles que nunca usaram um terno, mas por meio da fotopintura conseguiam. Hoje, esse meu projeto ‘Fotografia, Memórias Afetivas’ trata de buscar pessoas com fotopinturas e restaurá-las, além de fotografar a pessoa com o quadro.” A segunda caixa, da série ‘Ausências’, mistura as fotografias coloridas à mão com uma sobreposição de raios-X.

 

Exemplos de fotopintura (Créditos: Camila Coelho)

 

Série “Ausências” (Créditos: Camila Coelho)

 

“A fotografia que me dá um norte. Escolhi a fotografia para ser minha forma de expressão. Ela converge, está tudo ali: o cinema, a literatura, a poesia, o desenho, a composição do cenário como uma tela. É por meio dessa linguagem – que acho completa – que eu a escolhi. Para mim é um tesão sair pra fotografar e hoje posso dizer que fotografo para mim, nem tanto para expor.” Tanto que as fotografias que mais marcaram Ney não estão espalhadas pela casa.

 

 

Este slideshow necessita de JavaScript.

Série de fotografias feita em Nova York (Créditos: Walter Ney)

 

Este slideshow necessita de JavaScript.

Série de fotografias feita em Dubai (Créditos: Walter Ney)

 

Mesmo com essa ideia de não expor muito o seu trabalho, mas fotografar para si, Ney foi todo atencioso ao ter revelado, apenas para me mostrar, as fotos da sua última viagem, com destino à Colômbia. “Todo trabalho meu, eu fotografo. Tenho várias fotos de esporte, da corrida máster [com corredores a partir de 30 anos]. Minhas viagens sempre estão ligadas com o registro, porque quero contar histórias. Gosto da vivência, não tem como não fazer foto. Imagina, seria tipo um crime, uma traição para mim mesmo não fazer o mínimo de registro possível. Essas fotos da Colômbia eu me inspirei na cidade de Macondo do romance ‘Cem Anos de Solidão’, de Gabriel García Márquez.” Como a literatura se entrelaça na vida do Ney, é algo que remonta à meninice. Parece que cada aspecto desse homem atual foi costurado quando pequeno, mas essa colcha de retalhos que é a vida não ficou velha nem curta demais. Pelo contrário, ela foi adaptada, virada do avesso, feita de capa, de vela para barco, de turbante, de travesseiro para ver as estrelas.

 

15

Fotos da Colômbia (Crédito: Camila Coelho)

 

Vindo de origem pobre, Walter Ney foi um dos primeiros membros de sua família a se formar, então nunca teve um modelo em casa para a leitura. Mas, parece que o acaso foi bater na porta do rapazola mais uma vez. “Lá na Vila Nova, também era vizinho de um senhor que cuidava de um albergue noturno. Não sei se ainda tem isso, ficava lá na rua Araguaia. Eles recolhiam lixo. Então, esse senhor levava os filhos dele para ajudar e eu ia junto. Na verdade, a gente ia lá brincar, mas precisava ajudar também. Tínhamos que separar tudo, desde brinquedos – como um lixo reciclável – até os livros e gibis. Comecei a gostar de ler graças ao albergue noturno e seus gibis. A minha leitura talvez tenha sido estimulada pelo desenho, por conta das imagens. E foi lá que despertei pra leitura. Porque o dom, às vezes, precisa ser despertado.”

 

16

Walter Ney em sua cadeira de cinema (Crédito: Camila Coelho)

 

Detalhes da estante de Ney (Crédito: Camila Coelho)

 

LEIA MAIS

A carne que não lia o verbo: Alice e Lia no mesmo corpo

Abdou Faisol Bello: da África para Londrina por causa de um sonho

Conheça R., a mulher que sabe o que é o amor

Eduardo Hatada: um chef em movimento constante

Estela Fuzii: a trajetória da primeira nissei nascida em Londrina

 

 

 

 

 

 

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s