Incerteza e esperança, a percepção de um venezuelano no Brasil

Texto, fotos, áudios e vídeo: Tauana Marino

 

FOTO 1

Marco Antonio Fonseca, de 45 anos, e a família; eles chegaram a Londrina, vindos da Venezuela, em novembro do ano passado e buscam estabilidade no Brasil

 

Heroico o ato dos italianos, alemães, portugueses e espanhóis de, nos séculos 19 e 20, arriscaram-se em embarcações precárias para, fugindo de mazelas, construírem suas vidas e povoarem regiões do Brasil. O branco trabalhador, também explorado de certa forma, ascendeu e constituiu a elite no país tupiniquim. Sobrou aos índios, proprietários legítimos da terra, o genocídio. Aos negros, que construíram o país, literalmente, e tornaram o colonizador rico, sobrou o olhar de desprezo e a marginalização. Falamos com orgulho que nossos bisavôs vieram da Calábria ou do Porto. Achava, em minha ignorância, que a motivação da vinda fora o desejo de explorar um país em construção. Quando entendi um pouco mais do mundo, soube que eles fugiam da fome.

Três milhões de venezuelanos migraram do seu país nos últimos três anos. Em comparação, a crise migratória para a Europa, que recebe refugiados de guerras e de dificuldades diversas, recebeu 1,8 milhão de pessoas de 2015 a 2018. “Seus avós, bisavós também saíram dos países de origem com uma mala e só, assim como acontece com os venezuelanos. É muito difícil, mas as misturas enriquecem a cultura”, afirmou Marco Antonio Fonseca, imigrante que está desde novembro de 2018 em Londrina.

No último sábado de março, Marco saía da aula de português que frequenta toda semana na Catedral. Segundo ele, ainda está falando “portunhol”, mas as aulas esclarecem muitas palavras de nossa língua, principalmente os falsos cognatos. Muito solícito e alegre, quebra o estereótipo de alguém assustado pelo momento que seu país passa. Com ensino superior em engenharia de produção e 23 anos de experiência na área, migrou porque recebeu uma proposta formal de emprego no Brasil. Muito comunicativo, não se sente inseguro em Londrina, dizendo que a cidade foi receptiva e ficou feliz dos filhos se adaptarem rápido à escola. Ele e a família se sentem bem instalados, mas os pais de Marco estão na Venezuela e sua família, no geral, está espalhada pela América do Sul.

 

 

FOTO 2

Foto de quando Marco era criança, com a mãe e a avó

 

Marco se considera um imigrante, pois decidiu sair da Venezuela e escolher o lugar que viria. Refugiado, segundo ele, é quando alguém foge de alguma situação, sem opção, sem tempo ou dinheiro para escolher ou planejar. “Em nosso caso pudemos escolher. Podíamos ir ao Chile, para trabalhar. Além do mercado na minha área ser bom, há uma colônia muito grande de venezuelanos agora. Viemos para o Brasil porque recebi uma proposta”, disse, de uma maneira otimista.

Em toda a entrevista, senti que Marco em nenhum momento se diminuiu ou ficou desconfortável pela sua posição de imigrante. Elogiou o Cáritas Londrina (entidade sem fins lucrativos da Igreja Católica), por acolher, ajudar e aproximar os imigrantes e os refugiados. Não tem receio de falar sobre seu país, mas, segundo ele, porque as mazelas da crise não o atingiram profundamente. Morava na capital Caracas e se sente privilegiado de poder mudar de país e escolher como o fazer.

 

 

A principal diferença cultural que denota é que aqui nossos hábitos são mais tranquilos, não há música e dança sempre e, quando tem, é muito diferente. Além disso, segundo ele, temos que parar de comer e começar a dançar nas festas, aniversários e reuniões sociais.

 

 

Citou a infância e disse que quando pequeno pensava que poderia mudar o mundo. Percebeu que era adulto quando tomou conhecimento de que todos temos limitações, não apenas quando vivemos em conjunto, no caso de uma nação, mas também na vida pessoal. As fronteiras e os obstáculos são diversos e, segundo ele, era bom ter a ingenuidade da infância, para sonhar sem “porém”. Agora, o que pode planejar é ficar em Londrina até que sua filha termine o ensino médio, porque a família precisa de um tempo estável, pois a mudança do ano passado foi radical. Ele finaliza dizendo que não podem planejar a longo prazo: “Nós não pensávamos que íamos mudar de país. Mudamos. Agora o futuro eu não planejo dez anos. Aprendi que o futuro é agora”.

 

LEIA MAIS

Abdou Faisol Bello: da África para Londrina por causa de um sonho

Eduardo Hatada: um chef em movimento constante

Estela Fuzii: a trajetória da primeira nissei nascida em Londrina

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s