Ena Brandão, 80 anos, tem grandes planos para o futuro

Texto, fotos, áudios e vídeo: Júlia Marroni

 

Com 80 anos recém completados, Ena Brandão é daquele tipo de pessoa que emana energia e vivacidade. Com diversos interesses e habilidades, ela se desdobra para abraçar todos eles. Mãe, avó, dançarina, cozinheira, costureira, pedagoga especialista em criminologia, pintora com mais de 90 peças vendidas e escritora com dois livros publicados são apenas alguns dos adjetivos dessa mulher multifacetada.

Foi exatamente nesse clima dinâmico que ela me recebeu em sua casa para o nosso bate-papo. Toda sorridente e arrumada, ela estava na porta me esperando. Assim que eu entrei, já foi logo puxando papo e me oferecendo biscoitos caseiros que ela havia preparado. Culinária é, inclusive, um dos talentos dessa sul-mato-grossense, mas ela contou que só agora desenvolveu essa habilidade na cozinha porque na juventude não gostava de cozinhar. “Hoje em dia ainda não gosto [risos], mas sei fazer de um tudo, até bolo em formato de violão já fiz!”, ela contou.

Enquanto comíamos os biscoitos, percebi que alguns tecidos estavam separados no canto da sala. Quando perguntei sobre eles, Ena me contou que aqueles eram os retalhos das peças de roupa que ela costura e, em parceria com a ONG Fraternidade sem Fronteiras, envia para crianças na África. Desde muito nova, Ena sabe costurar. “A costura é algo que desde os oito anos eu faço. Minhas tias eram costureiras e eu, ainda muito pequena, ficava perto das máquinas cortando retalho. Depois, elas foram me ensinando a alinhavar a costura e logo comecei fazer roupa para boneca. Como tinha muita curiosidade, comecei a estudar e aprendi a fazer crochê, tricô e bordado. Desde então, nunca mais larguei a agulha.” Quase 70 anos depois, a agulha continua trabalhando muito. Além das roupas que vão para o exterior, Ena se reúne com um grupo de amigas toda quarta-feira para costurar peças de enxoval para recém-nascidos de famílias carentes de Mato Grosso do Sul.

Assim como a costura, a dança é outra paixão que a remete à infância. Ela contou com carinho e com um tom levemente saudosista que começou a dançar, principalmente, por falta de opção. Afinal, durante a sua juventude, na década de 1950, no interior de Mato Grosso do Sul – na época Mato Grosso, que não tinha televisão, então os eventos da cidade eram os bailes. Isso sem falar que era o momento em que ela e suas amigas encontravam os namorados. Ena ainda lembra que, antes de dançar com os pretendentes, dançava com o pai.

Agora, ela busca palcos pelo mundo. Não entenda isso de forma metafórica, pois fui bem literal em tal afirmação. Nos últimos anos, ela já dançou tango com um argentino na Feira de San Telmo, em Buenos Aires; dançou na França com alguns turistas que estavam passeando em Paris; pulou Carnaval em Portugal… e muito mais. Ena me explicou que é simples: “Se ouço música e tenho chance de dançar, eu danço. Não tenho vergonha nem me limito a um ritmo”.

Essas viagens são apenas algumas da vasta lista de países conhecidos. A prova disso é uma coleção de ímãs de geladeiras, dos mais diferentes tamanhos, cores e origens, que comprou em suas viagens.

Vendo a cozinha e todos aqueles ímãs de geladeira, percebe-se que a casa de Ena é uma típica casa de avó, cheia de fotos dos dois filhos e dos três netos. Para alegrar ainda mais o espaço, as paredes se colorem com as obras de arte que ela mesma pintou. Lembra que no início do texto eu falei que ela era multitalentosa? Pois bem, a pintura é mais um desses talentos. Com mais de 90 telas vendidas e tendo sido artista solo em três exposições óleo sobre tela em Campo Grande (MS), Ena me contou que a pintura surgiu em sua vida por acaso, mas que depois que pegou no pincel percebeu que não precisava nascer uma grande artista para conseguir pintar. Era tudo uma questão de técnica e dedicação.

De força de vontade e dedicação, Ena entende. Emocionada e sem me olhar nos olhos, com uma espécie de constrangimento, ela me contou que a pintura desapareceu da sua vida por um tempo, assim como as outras atividades manuais. Em 2016 e em 2018, Ena sofreu duas quedas, dentro da própria casa, nas quais fraturou lugares diferentes da coluna (cervical e lombar) e ficou presa a uma cadeira de rodas. Antes de entrar em mais detalhes sobre as quedas, ela adiantou que faz de tudo para se recuperar e não fica remoendo a dor e a limitação que vieram com elas.

 

 

Para superar as quedas foi importante se agarrar à fé e à meditação. Esta é uma parte tão importante na vida de Ena, que ela tem um altar em que homenageia alguns santos e guias espirituais, independentemente da religião às quais eles são associados. Ela me contou que, enquanto estava imobilizada por conta das quedas, percebeu a importância de desenvolvermos não apenas as habilidades físicas, mas as mentais e as espirituais. Para ela, “só o conhecimento sobre a essência humana e sobre a alma é que nos leva a esse avançar espiritual. É por meio do conhecimento das energias e do quântico que podemos acessar espiritualmente qualquer benefício que a gente queira. Eu acredito que temos que viver em harmonia, verdade e amor, sem guardar mágoa ou rancor. A gente tem que perdoar e agradecer todos os dias porque o amor é a mola que move todos os seres. A humanidade só vai evoluir quando amor vencer o ódio”.

Reflexões como essas sempre estiveram presentes no seu dia a dia. Foi então que, no início da década de 2000, ela decidiu colocar essas questões no seu primeiro livro: “Gotas Sábias de um Ríshi”. Depois, em 2007, lançou seu segundo livro, “Janelas Mágicas”, e agora está terminando o terceiro livro. Além disso, Ena escreve contos e poesias. Segundo ela, há um apego com todos os seus textos, mas o conto “Tradução de mim” é um dos que a mais lhe representa.

 

 

Escrever e ensinar a escrever sempre foram as paixões de Ena. Pedagoga especializada em alfabetização, ela contou que sente que escolheu a profissão certa. “Acho que o professor é um cajado que ajuda o aluno a superar-se e a tomar conhecimento de coisas que, óbvio, ele não conhece. Então o professor é quem orienta e auxilia o aluno a vencer a ignorância e vencer a si mesmo. É por meio do estudo que o aluno pode avançar humana e espiritualmente, mas sem o professor o aluno não consegue. Tenho certeza que escolhi a profissão certa. Como adoro alfabetizar e sempre dei aula para as primeiras e segundas séries, sei que é muito clichê, mas sinto que nunca trabalhei. Para mim era um prêmio começar o ano com uma criança que não sabia pegar no lápis e no final do ano essa criança sabia ler e escrever. Todo final de ano ficava ansiosa para começar o ano seguinte para pegar uma nova turma e ter esse desafio que é alfabetizar.”

Todo esse entusiasmo rendeu frutos e chamou atenção, mesmo nos momentos de dificuldades, como durante a ditadura militar, em que ela era professora na capital paulista. Por não adotar um método convencional de ensino, Ena contou que começou a ser vigiada pela diretora do colégio em que lecionava. A situação chegou ao ponto de tal diretora denunciar seu trabalho à Superintendência de Ensino da região. Lá ela precisou convencer uma equipe de profissionais sobre a qualidade de seu trabalho dando uma aula de alfabetização. Mesmo sendo professora infantil, a aula foi direcionada para um grupo de adultos. Entre esses “alunos” havia alguns professores da Universidade de São Paulo (USP). A repercussão, principalmente com este grupo, foi muito positiva. A aula foi tão boa que, além de manter seu emprego, Ena recebeu novas propostas. “A escola era muito centrada na cartilha e a minha metodologia era diferente, chamou muita atenção e foi considerada inovadora para a época. Eles acabaram me chamando para elaborar um material, com apoio da USP, e apresentar um programa de alfabetização na TV Cultura. Como estava separada da minha família, pois meus filhos e meu marido moravam no interior, optei por voltar e ficar com eles.”

Ena conta que, independentemente do que acontecia na sua vida, ela sempre colocava no papel o que vivia. Ela revelou, também, que hoje tem muito orgulho de suas produções, mas que nem sempre foi assim. “Sempre escrevi muito, só que rasgava e jogava fora porque achava que as pessoas iam rir das coisas que escrevia e que ninguém ia dar valor. Não tinha esse senso de que poderia escrever e que aquilo que escrevia era bonito. Isso mudou quando comecei a trabalhar como pedagoga no sistema penitenciário. Lá, vi tanto sofrimento. Vi aquelas pessoas marginalizadas e comecei a refletir sobre a minha vida. Foi então que percebi o quão privilegiada sou e comecei a me dar valor. Dar valor à minha saúde, ao meu corpo, à minha mente e, consequentemente, às minhas produções.”

Trabalhar no sistema penitenciário foi importante não apenas para Ena. Depois de cursar pedagogia e fazer algumas especializações, ela decidiu se dedicar à criminologia. Foi então chamada para participar de uma equipe que seria responsável por montar o Presídio de Segurança Máxima no estado de Mato Grosso do Sul e depois fez parte da equipe que montou o Presídio Feminino de Campo Grande. Em seguida, foi convidada para trabalhar com crianças e adolescentes em conflito com a lei. Junto com uma assistente social, uma psicóloga e uma coordenadora, ela trabalhou para impedir que esses menores fossem para a cadeia junto com os presos maiores de idade e lutou para que eles tivessem uma casa de reabilitação específica. Para tornar o projeto realidade, ela passou um ano fazendo relatórios e se dedicou para manter uma casa temporária de acolhimento. Depois de a ideia ser aprovada pelo juiz, foram criadas novas sedes por todo o estado. Após nove anos trabalhando no sistema penitenciário, Ena foi convidada pelo diretor-geral do Departamento do Sistema Penitenciário para ser chefe de gabinete dele, onde se aposentou.

Para finalizar nossa conversa, pedi que ela pensasse em tudo o que já viveu e me contasse o que sentisse. Ela parou, pensou e sorriu. Como poeta que é, começou a resposta citando um trecho de seu livro: “As horas tão distraídas levaram meu dia, mas deixaram o pôr do sol”. Rindo, ela completou: “Para mim, o pôr do sol é lindo e eu espero ainda admirar muitos”.

 

 

Este texto não consegue abranger em plenitude todas as conquistas e feitos de Ena ao longo dos anos. Como não é uma biografia, e sim um perfil, estas linhas buscaram, eu espero que com sucesso, pincelar algumas das muitas nuances dessa mulher múltipla.

 

01

Pintura óleo sobre tela

 

02

Epígrafe do livro “Janelas Mágicas”, de Ena Brandão

 

03

Retalho de tecido de um dos vestidos enviados para a África

 

04

Sala de costura particular

 

05

Obra da exposição “Harmonia e Cor”, por Ena Brandão

 

06

Pela casa, lembranças das viagens

 

07

Sincretismo religioso

 

08

Material de trabalho e lazer

 

LEIA MAIS

A carne que não lia o verbo: Alice e Lia no mesmo corpo

Conheça R., a mulher que sabe o que é o amor

Estela Fuzii: a trajetória da primeira nissei nascida em Londrina

Ormenzinda Pereira e a história de uma pessoa comum

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s